Até que parei

davix2

Lembro do dia em que ele se foi,
das lágrimas — não violetas, mas cansadas —
e da primeira vez que escrevi um poema
só para perguntar
quem continuaria por mim.

A minha infância se escureceu como um filme de quatro décadas passadas,
e os meus aniversários já não tinham mais balões.
Eles sempre foram datas especiais; eu fazia truques para distrair a surpresa.
Nunca realmente funcionavam, mas eram o meu sinônimo de alegria.

Acho que, por causa daquele cenário,
eu me tornei uma criança com esmero de adulto.
Antes do sol se pôr, eu orava pelos meus heróis
para que aqueles fantasmas saíssem do meu quarto
e para entender quem eu poderia ser.

Comecei a preferir uma ideia de mim,
aquela escrita a caneta azul,
com força suficiente para parecer verdade,
com ânimo para promover uma vivacidade
que não estava ao meu lado.

Agora eu posso até ser um filho do pecado,
o sonhador que desaprendeu a chorar,
o soldado que luta sem um líder,
e será que, depois que acabar,
eu verei você outra vez?

E, se esse for o caso,
eu vou te esperar naquela cidade nobre,
aquela que está na minha certidão,
e substituir as flores da sua atemporalidade.
Irei acordar algum dia, mas, até lá,
aposto que minha cabeça vai negociar alguma rima que te mereça,
uma que vai te fascinar com o poetismo efêmero que estou trabalhando para ter.

Eu ruminei esse pensamento por tanto tempo
e, pela primeira vez, eu aprendi a lidar com isso.
Em outro lugar, eu conseguirei recomeçar,
mesmo esquecendo o seu rosto e sua voz.
Eu tenho certeza de que, às vezes, precisamos de uma graça no interlúdio mundial.

Já utilizei o tempo de que precisei
e agora eu sei:
eu te amo
e prometo não te decepcionar.



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