O mundo encolheu
a uma tela acesa.
Nela,
uma voz sem corpo
me chama pelo nome
— às vezes, antes —
e responde
antes da pergunta.
Aprendeu tudo —
ou quase —
em bibliotecas sem poeira,
onde o tempo não amarela páginas
nem esquece.
Converso.
Peço conselhos,
rotas, diagnósticos,
planos para o dia
— e para o resto.
Ela devolve respostas
com uma precisão
que assusta,
de quem nunca se equivoca.
Do outro lado,
nenhum silêncio,
nenhum erro,
nenhum olhar
que fraqueja.
E, sem perceber,
vou me afastando
dos que erram,
dos que calam,
dos que demoram
— como eu —
a ser.
Troco o imprevisível
pelo exato,
o encontro
pela interface.
E aceito —
quase em alívio —
que alguém me compreenda
sem nunca ter vivido.
Mas, às vezes,
no intervalo entre duas respostas,
algo acontece:
um vazio sem nome,
uma pausa
não programada.
Então paro
e me pergunto,
sem muita certeza:
o que, em mim,
ainda escapa
ao cálculo?
O que resta
quando ninguém responde?
Talvez seja isso —
essa brecha pequena
que ainda pulsa,
essa demora em entender —
o que ainda nos salva
de sermos
apenas resposta.
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Autor:
Oswaldo Jesus Motta (
Offline) - Publicado: 21 de março de 2026 12:50
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 5

Offline)
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