Pupilas Dilatadas no Espelho

Francisco Queiroz

De costas, pai e filho,

idênticos na silhueta,

eu, com as pupilas dilatadas,

só percebi serem pai e filho

por ouvir

parte da conversa de beirada.

 

E ali se distinguiam,

o tom de voz mais rouco do pai,

firme, progressista,

o filho, um rapagote

entrando na fase adulta,

sem nenhuma certeza,

o pai dava o rumo

e ele hesitava.

 

Engraçado, pensei,

o pai queria a continuidade

de si mesmo no filho,

um pupilo no espelho,

mas o rapaz era outra coisa

e queria ser outro alguém.

 

O resultado eu não vou saber,

a médica os chamou,

eu era o próximo,

mas rezo para que não

se machuquem muito.

  • Autor: Francisco Queiroz (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de março de 2026 10:33
  • Comentário do autor sobre o poema: Vi essa cena em um consultório, achei interessante o movimento, havia muita coisa acontecendo ali, não coloquei tudo, porque a poesia também é feita de silêncios.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 2
  • Em coleções: Urbano.


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