130 - DEIXEM-ME ESTAR SOSSEGADO

Arthur Santos

DEIXEM-ME ESTAR SOSSEGADO

Deixem-me estar sossegado.

Estou a pedir-vos para me deixarem estar sossegado.

Porque é que não me deixam estar sossegado ?

 

Estou farto de vos dizer.

Estou farto de vos pedir

E tremo só de perceber

Que não me querem ouvir

Eu não quero ser um alinhado

Muito bem educado,

Cuidadosamente engravatado

Com uma gravata de ultima moda

Cheia de bonecos e saliências.

Não quero ser alguém que se acomoda

Nessas inúteis aparências

Quero antes ser alguém que se incomoda!

Ouviram bem? Alguém que se incomoda!

 

Até já me têm criticado

Por não andar engravatado!

Por favor deixem-se dessas insistências,

Eu não quero ter estampado

Numa cara de ridícula anedota

Um sorriso de idiota,

Um daqueles sorrisos que querem parecer verdadeiros

Pretensamente saídos de gentis cavalheiros

Mas que mais se assemelham a tristes esgares

Saídos afinal de falsos cavalheiros.

 

Deixem-me estar sossegado.

Estou a pedir-vos para me deixarem estar sossegado.

Não, já vos disse que não.

Não quero ir a jantares.

Vão vocês aos jantares.

Comam tudo e divirtam-se bastante

Nesses horríveis e entediantes jantares.

Eu não quero estar presente nem por um breve instante.

Já disse que não quero ir.

Não me obriguem a ir.

Porque é que me querem obrigar a ir?

E ainda por cima com o reles argumento

De que os jantares fazem parte das obrigações profissionais?

Até posso ser considerado um jumento,

Não me importo que me considerem um jumento,

Mas essa é demais...

Não quero ir,

Já disse que não quero ir!

 

E depois as conversas são sempre muito inteligentes

E eu não gosto de conversas inteligentes

Porque eu não sou inteligente.

 

Fala-se sempre e inevitavelmente

Com muita importância e muitos ares

De bons e grandes conhecedores,

Do excelente vinho da região tal,

Da marca tal,

Com um sabor tal,

Que acompanha muito bem não sei o quê.

 

Fala-se sempre e inevitavelmente

Com muita importância e muitos ares

De bons e grandes conhecedores,

De excelentes restaurantes

Onde se come muito bem não sei o quê.

 

Fala-se sempre e inevitavelmente

Com muita importância e muitos ares

De bons e grandes conhecedores,

De assuntos muito importantes.

De assuntos confidenciais e muito importantes!

 

Deixem-me estar sossegado.

Estou a pedir-vos para me deixarem estar sossegado.

Eu não quero pertencer à galeria dos importantes.

Porque é que eu hei-de pertencer aos importantes?

Eu não preciso de ser importante.

Ouviram bem?

Eu não quero ser importante.

Porque eu não sou importante.

Eu não quero entrar em surdas lutas de poder

Porque eu não quero ter poder!

 

Deixem-me estar sossegado.

Estou a pedir-vos para me deixarem estar sossegado.

Eu não preciso de conversas de bastidores.

Sejam vocês sozinhos traidores e estupores.

Sejam vocês sozinhos senhores doutores.

Eu não preciso de intrigas

E até faço figas

Para que se esqueçam de mim

Ouviram bem? Esqueçam-se de mim

Estou a pedir-vos encarecidamente que se esqueçam de mim.

 

Se vos dá assim tanta satisfação

Serem pessoas importantes

Sejam importantes sozinhos

Sejam elegantes sozinhos

Sejam conhecedores sozinhos

Mas comigo... não!

Eu quero estar de fora dessa relação carniceira

Quero viver a vida à minha maneira!

 

  • Autor: Arthur Santos (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 19 de março de 2026 07:47
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4
Comentários +

Comentários1

  • Freddie Seixas

    Perfeição em letras finas!

    • Arthur Santos

      Grato pelo comentário.



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