A gaiola está aberta.
Escancarada.
A porta que o pássaro passou a vida inteira
encarando e encostando,
nunca fechando de verdade,
mas sem nunca ser franqueada.
O pássaro olha pra fora.
Vê o azul, o vento, as outras asas.
Mas não sabe, não quer ou não aprendeu a sair de sua "casa".
Disseram pra ele, desde sempre,
que voar é coisa de doido, uma doença.
Que o chão é seguro.
Que o céu é lugar de quem morre, de quem desistiu de sua crença.
Ele aprendeu a pular de galho em galho
Dentro do mesmo espaço.
Acreditou que o mundo cabia ali.
Que a fome era amor.
Que o silêncio era proteção e o fim do seu cansaço.
A gaiola está aberta.
Mas quem passa a vida preso
Confunde liberdade com abismo e incertezas.
Do lado de fora,
Tem uns que voaram.
Alguns que um dia cansaram de espiar entre as grades
e na primeira oportunidade,
decidiram que o medo não mandaria em suas vontades.
O pássaro ainda não descobriu que a asa só fica forte
Quando bate contra o vento.
Que cair faz parte.
Que o chão existe, sim,
Mas não é lugar de estagnamento.
O pássaro ainda olha e observa.
Ainda sente o cheiro do lado de fora.
Aguardando algum milagre divino despertar e agradecer depois por suas súplicas e rezas...
Mas fica.
E o tempo só passa para o pássaro que continua duvidando da sua própria natureza.
A gaiola está aberta.
O pássaro não sabe voar.
E os que já batem asas,
Só podem no céu se encontrar.
Porque não se ensina o voo
A quem aprendeu a amar a própria cela.
O máximo que se faz
É deixar a cela aberta.
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Autor:
Anna Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 15 de março de 2026 23:24
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 4

Offline)
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