A Gaiola

Anna Gonçalves

A gaiola está aberta.

Escancarada.

A porta que o pássaro passou a vida inteira

encarando e encostando,

nunca fechando de verdade,

mas sem nunca ser franqueada.

 

O pássaro olha pra fora.

Vê o azul, o vento, as outras asas.

Mas não sabe, não quer ou não aprendeu a sair de sua "casa".

 

Disseram pra ele, desde sempre,

que voar é coisa de doido, uma doença.

Que o chão é seguro.

Que o céu é lugar de quem morre, de quem desistiu de sua crença.

 

Ele aprendeu a pular de galho em galho

Dentro do mesmo espaço.

Acreditou que o mundo cabia ali.

Que a fome era amor.

Que o silêncio era proteção e o fim do seu cansaço.

 

A gaiola está aberta.

Mas quem passa a vida preso

Confunde liberdade com abismo e incertezas.

 

Do lado de fora,

Tem uns que voaram.

Alguns que um dia cansaram de espiar entre as grades

e na primeira oportunidade,

decidiram que o medo não mandaria em suas vontades.

 

O pássaro ainda não descobriu que a asa só fica forte

Quando bate contra o vento.

Que cair faz parte.

Que o chão existe, sim,

Mas não é lugar de estagnamento.

 

O pássaro ainda olha e observa.

Ainda sente o cheiro do lado de fora.

Aguardando algum milagre divino despertar e agradecer depois por suas súplicas e  rezas...

Mas fica.

E o tempo só passa para o pássaro que continua duvidando da sua própria natureza.

 

A gaiola está aberta.

O pássaro não sabe voar.

E os que já batem asas,

Só podem no céu se encontrar.

 

Porque não se ensina o voo

A quem aprendeu a amar a própria cela.

O máximo que se faz

É deixar a cela aberta.

  • Autor: Anna Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de março de 2026 23:24
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4


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