Este domingo não tem voz, é apenas um vácuo.
E minha dor aproveita o silêncio para crescer,
como mofo nas paredes da alma.
O nó na garganta é um inquilino que não paga aluguel,
e eu fico quieto, como um cão ferido
que lambe a própria chaga em silêncio,
porque sabe que o mundo não se importa.
Mas o bicho aqui ainda morde. Não me entrego.
Pego a vassoura como quem empunha uma arma.
Dou ordens ao caos que posso ver: organizo os móveis,
alinco os livros, esfrego a poeira,
numa tentativa desesperada de enganar
a desordem que me devora por dentro.
Mato as horas com o suor da testa.
Mantenho as mãos ocupadas para que a mente
não me empurre para os porões de mim mesmo,
onde não há janelas, nem saída de emergência,
onde o escuro é a única mobília.
Vou continuar aqui, fingindo que este piso reluzente
pode refletir algo além do meu cansaço.
Tento arrancar a nódoa que, na verdade,
tinge o meu sangue.
Essa dor que ri de água e sabão, e
que vassoura nenhuma
tem cerdas para alcançar.
-
Autor:
Jose Rinaldo Pinheiro Leal (
Offline) - Publicado: 15 de março de 2026 17:55
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3
- Usuários favoritos deste poema: Jose Rinaldo Pinheiro Leal

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.