Arquitetura do caos

Jose Rinaldo Pinheiro Leal

 

 

Este domingo não tem voz, é apenas um vácuo.

E minha dor aproveita o silêncio para crescer,

como mofo nas paredes da alma.

O nó na garganta é um inquilino que não paga aluguel,

e eu fico quieto, como um cão ferido

que lambe a própria chaga em silêncio,

porque sabe que o mundo não se importa.

Mas o bicho aqui ainda morde. Não me entrego.

Pego a vassoura como quem empunha uma arma.

Dou ordens ao caos que posso ver: organizo os móveis,

alinco os livros, esfrego a poeira,

numa tentativa desesperada de enganar

a desordem que me devora por dentro.

Mato as horas com o suor da testa.

Mantenho as mãos ocupadas para que a mente

não me empurre para os porões de mim mesmo,

onde não há janelas, nem saída de emergência,

onde o escuro é a única mobília.

Vou continuar aqui, fingindo que este piso reluzente

pode refletir algo além do meu cansaço.

Tento arrancar a nódoa que, na verdade,

tinge o meu sangue.

Essa dor que ri de água e sabão, e

 que vassoura nenhuma

tem cerdas para alcançar.

 

 



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