Onda

Anna Gonçalves

A onda não avisa e nem pede licença,

chega e molha a fronteira que desenhei no meu pergaminho entre ontem e hoje.

Não é um chamado e nem um aclamado,  é um eco de um passado...

A prova de que o corpo ainda lembra uma coreografia que a mente já desaprendeu.

 

Os fatos são muros, não são âncoras do barco.

E os muros não seguram maré.

E nessa contraposição,

construí portos e faróis com minhas próprias mãos,

Mas confesso que já fui a quem insistiu em permanecer, hipnotizada pelo canto da sereia... 

Fui a tripulação e a capitã que decidiu mudar a rota,

Atrás de terra à vista, por os pés na areia.

Meu mapa, agora, tem linhas só minha...

Linhas que seguem as gaivotas...

 

Enquanto isso, do outro lado do oceano, ainda navega com os olhos fechados,

Anotando no diário de bordo as névoa, os tubarões que enfrentaste  sem nunca atracar o barco.

A página é a mesma, a tinta acabou secando na primeira linha.

Enquanto isso, virei com a força de quem cansa de esperar o vento, mas que dá a iniciativa.

 

No final, somos a mesma moeda, sim!

E estamos do mesmo lado,

mas eu já vi o desgaste do metal, o valor que se perdeu nos olhos após o seu último diálogo... 

Até a mudança de barco. 

E o que dá a entender é que o outro capitão, junto com sua tripulação ainda vê que o outro lado existe igual.

                       [Errado não está, mas ambos escolheram o seu final]

 

A saudade é doída, arde o meu peito que chego a ranger os dentes,

mas no final, não é um pedido de volta.

                                         [Creio eu que nenhuma das partes]

É só o marulho de um mar que um dia dividimos e sonhamos juntos naquele mesmo barco.

E aprender a sentir o som sem precisar mergulhar de novo,

                          [ É como ouvir o barulho do disparo da escopeta, e não sentir a lança atravessando meu corpo] 

 

Faço mais um movimento, volto pra mim.

Lembrei novamente e cai em sí,

não do que fui navegando junto, mas do que sou sem.

E nesse lembrar, a estrada reaparece, e só preciso seguir em frente...

Um passo.

Depois outro.

A onda que vem, e a mão que escreve, e o chão que fica.

Ainda sinto sua falta, mas a batalha permanece diária e fixa.

Pois só eu sei do meu sofrer,

e o resto que ficou de você

em mim.

  • Autor: Anna Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 14 de março de 2026 18:28
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4


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