Vale a pena viver sem marcas profundas?
Talvez.
Mas só quando os factos e os atos
falam mais alto que o barulho do nome.
Apequenamo-nos diante do deslumbre da natureza,
não por fraqueza,
mas por lucidez:
o mundo é maior que a nossa vaidade.
Vale a pena passar pela terra
sem assinalar a passagem?
Talvez não.
Porque só morremos de verdade
quando deixamos de ser lembrados
— e só somos lembrados
pelo que tocamos nos outros.
Há quem atravesse a vida emproado,
bajulando o material,
ancorando em pequenas ilhas de sentido
por breves instantes,
para depois lançar-se
ao mar do ódio latente
que já trazia na alma.
Vivemos nossas pequenas dores.
A exaustão silenciosa não oferece transcendência.
É preciso ver além do véu,
perceber que muitos discursos
são apenas tramas vazias.
Com olhar trémulo
e palavra límpida,
descobre-se que não nos afogamos no reflexo,
mas naufragamos
na ausência de um reflexo autêntico.
O resto são simulacros de felicidade.
Os dias passam,
mas não criam raízes.
As decisões acontecem,
mas não nos pertencem.
Tudo é transitório,
inclusive o próprio eu.
Vive-se,
mas nem sempre se habita
o verbo viver.
Imagno Velar
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Autor:
Imagno Velar (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 12 de março de 2026 04:40
- Comentário do autor sobre o poema: Inspirado num dos livros do Mario Sergio Cortella
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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