Galhos de Amora e o menino
Ele vem de pirraça fina,
pé no barro, olho de julgando,
traz na mão uma taca verde,
galho de amora recém-cortado.
Primeira chicotada é aviso:
esquenta a perna, risca a costa,
a pele guarda o roxo breve
e a mãe guarda o grito na boca.
Quanto mais taca, mais pirraça,
o sapeca aprendeu de cor:
briga por naco de manga,
choraminga por sombra de muro.
Bravura de pouca coisa,
surra que desce por nada,
só pra ver o mundo dobrar-se
no reflexo do seu riso torto.
A casa vai se acostumando:
cadeira fora do lugar,
porta batida, galinha solta,
remendo novo na calça.
Ele mesmo se acostumou
com o ardor que ensina o couro,
acha que dor é conversa,
que a mão que bate é costume.
Mas no galho ainda há fruta,
amora escura, doce oculta:
quem sabe um dia o menino
troque a taca por colhê-la,
e a pirraça vire só riso,
sem perna quente, sem costa roxa,
só o sumo a escorrer-lhe os dedos,
como perdão que mancha a boca!
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Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 11 de março de 2026 13:35
- Categoria: Triste
- Visualizações: 1

Offline)
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