Galhos de Amora e o menino

Sinvaldo de Souza Gino

Galhos de Amora e o menino

Ele vem de pirraça fina,  
pé no barro, olho de julgando, 
traz na mão uma taca verde,  
galho de amora recém-cortado.  

Primeira chicotada é aviso:  
esquenta a perna, risca a costa,  
a pele guarda o roxo breve  
e a mãe guarda o grito na boca.  

Quanto mais taca, mais pirraça, 
o sapeca aprendeu de cor:  
briga por naco de manga,  
choraminga por sombra de muro.  
Bravura de pouca coisa,  
surra que desce por nada,  
só pra ver o mundo dobrar-se  
no reflexo do seu riso torto.  

A casa vai se acostumando:  
cadeira fora do lugar,  
porta batida, galinha solta,  
remendo novo na calça.  
Ele mesmo se acostumou  
com o ardor que ensina o couro,
acha que dor é conversa,  
que a mão que bate é costume.  

Mas no galho ainda há fruta,  
amora escura, doce oculta:  
quem sabe um dia o menino  
troque a taca por colhê-la,  
e a pirraça vire só riso,  
 sem perna quente, sem costa roxa,  
só o sumo a escorrer-lhe os dedos,  
como perdão que mancha a boca!

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 11 de março de 2026 13:35
  • Categoria: Triste
  • Visualizações: 1


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