121 - ARRANJA-ME UM EMPREGO DE PREFERÊNCIA ONDE NÃO SE TRABALHE

Arthur Santos

ARRANJA-ME UM EMPREGO DE PREFERÊNCIA ONDE NÃO SE TRABALHE

(Cena verdadeira, observando uma incompetente funcionária de limpeza urbana)

 

está calor.

um calor tórrido.

ela, a empregadinha

da Junta de Freguesia, está à sombrinha

de braços cruzados

a olhar o infinito.

tira do bolso do casaco um maço de tabaco,

puxa dum cigarrito

e fuma despreocupadamente.

muito despreocupadamente.

 

está no seu horário de trabalho

mas parece não ter patrão,

não tem nenhuma obrigação.

 

portanto nada de afrontas

não tem de prestar contas.

o descanso, o cigarrito

uma vez por hora

e deitar a beata fora.

trabalhar? nem um bocadito.

o salário está garantido

como prémio por descansar a dias

para quê gastar energias?

 

ela, a empregadinha

da Junta de Freguesia,

continua tranquila à sombrinha

ao telemóvel a gastar a massa

e a cumprimentar a malta que passa

- olá dona branquinha

- como está senhor João

- Bom dia senhor Januário.

então já levou o seu cão

ao veterinário?

 

ah! e cumprimentada a malta...

namorar que também faz falta.

ele chega dá-lhe dois beijos

e ficam a conversar.

tem tempo para trabalhar...

mais tarde talvez,

a manhã já vai longa

e até agora nada fez!

 

trabalhar não é uma especialidade sua,

prefere descansar em vez de limpar a rua.

é muito mais saudável

do que se dedicar a essa tarefa desagradável.

 

ela, a empregadinha

da Junta de Freguesia,

no intervalo dessa letargia,

olha o lixo vagamente

mas não o vê

porque não o quer ver.

o seu olhar perde-se distraidamente

em coisa nenhuma.

 

tem luvinhas calçadas não sei bem para quê

e não sendo de modas

tem uma farda cor de laranja linda.

tem ainda

um carrinho com rodas,

dois recipientes de recolha

pá e vassoura

que para meu espanto

estão encostados a um canto

sem utilidade

e mostrando a sua agilidade

o lixo esvoaça livremente na cidade

num gracioso movimento

ao ritmo do vento!

 

ela, a empregadinha

da Junta de Freguesia,

uma vez fumado o cigarrito,

e dado dois dedos de namoro,

a manhã passou num estouro,

já espera pela hora de almoço

e não está com meias modas,

deixa abandonados o carrinho com rodas,

a pá e a vassoura sem alguém que os guarde

e ala que se faz tarde,

desce feliz a avenida

por hoje missão cumprida!

 

uma bandalheira.

os jardins da cidade?

sim, continuam uma estrumeira!

  • Autor: Arthur Santos (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 10 de março de 2026 09:05
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 6
  • Usuários favoritos deste poema: Apegaua
Comentários +

Comentários1

  • Apegaua


    A cá, meu pícaro poeta.
    Não falaste o nome da menina da freguesia.
    Vá que ela bata por cá pra modo de trabalhar.
    Saúde.
    Apegaua.



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