ARRANJA-ME UM EMPREGO DE PREFERÊNCIA ONDE NÃO SE TRABALHE
(Cena verdadeira, observando uma incompetente funcionária de limpeza urbana)
está calor.
um calor tórrido.
ela, a empregadinha
da Junta de Freguesia, está à sombrinha
de braços cruzados
a olhar o infinito.
tira do bolso do casaco um maço de tabaco,
puxa dum cigarrito
e fuma despreocupadamente.
muito despreocupadamente.
está no seu horário de trabalho
mas parece não ter patrão,
não tem nenhuma obrigação.
portanto nada de afrontas
não tem de prestar contas.
o descanso, o cigarrito
uma vez por hora
e deitar a beata fora.
trabalhar? nem um bocadito.
o salário está garantido
como prémio por descansar a dias
para quê gastar energias?
ela, a empregadinha
da Junta de Freguesia,
continua tranquila à sombrinha
ao telemóvel a gastar a massa
e a cumprimentar a malta que passa
- olá dona branquinha
- como está senhor João
- Bom dia senhor Januário.
então já levou o seu cão
ao veterinário?
ah! e cumprimentada a malta...
namorar que também faz falta.
ele chega dá-lhe dois beijos
e ficam a conversar.
tem tempo para trabalhar...
mais tarde talvez,
a manhã já vai longa
e até agora nada fez!
trabalhar não é uma especialidade sua,
prefere descansar em vez de limpar a rua.
é muito mais saudável
do que se dedicar a essa tarefa desagradável.
ela, a empregadinha
da Junta de Freguesia,
no intervalo dessa letargia,
olha o lixo vagamente
mas não o vê
porque não o quer ver.
o seu olhar perde-se distraidamente
em coisa nenhuma.
tem luvinhas calçadas não sei bem para quê
e não sendo de modas
tem uma farda cor de laranja linda.
tem ainda
um carrinho com rodas,
dois recipientes de recolha
pá e vassoura
que para meu espanto
estão encostados a um canto
sem utilidade
e mostrando a sua agilidade
o lixo esvoaça livremente na cidade
num gracioso movimento
ao ritmo do vento!
ela, a empregadinha
da Junta de Freguesia,
uma vez fumado o cigarrito,
e dado dois dedos de namoro,
a manhã passou num estouro,
já espera pela hora de almoço
e não está com meias modas,
deixa abandonados o carrinho com rodas,
a pá e a vassoura sem alguém que os guarde
e ala que se faz tarde,
desce feliz a avenida
por hoje missão cumprida!
uma bandalheira.
os jardins da cidade?
sim, continuam uma estrumeira!
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Autor:
Arthur Santos (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 10 de março de 2026 09:05
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 11
- Usuários favoritos deste poema: Apegaua

Offline)
Comentários2
A cá, meu pícaro poeta.
Não falaste o nome da menina da freguesia.
Vá que ela bata por cá pra modo de trabalhar.
Saúde.
Apegaua.
Não sei como a menina preguiçosa se chama mas vou investigar 🙂
Abraço car poeta!
Boa noite poeta! Contraste Visual: A farda cor de laranja linda e as luvas (símbolos do trabalho) contrastam com a inércia da personagem. O carrinho e a vassoura viram objetos de decoração (encostados a um canto).
Crítica à Gestão Pública: Ao citar a Junta de Freguesia, o autor aponta o dedo à burocracia ou ao desleixo no setor público, onde o salário está garantido independentemente do esforço.
Ironia Final: A descrição do lixo que esvoaça num gracioso movimento ao ritmo do vento é brilhante e transforma a sujeira em algo poético para enfatizar o absurdo da situação.
Oralidade: O uso de nomes (Dona Branquinha, Sr. João) e expressões como: ala que se faz tarde, aproxima o poema do leitor, criando uma cena que qualquer um poderia presenciar numa manhã quente de verão. Parabéns por seu poema! Meu abraço fraterno.
Amiga Vilma agradeço a sua brilhante análise ao meu poema.
Efectivamente tratou-se duma situação real que presenciei e escrevi o poema a ver o que se ia passando.
Retribuo o abraço fraterno.
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