Eu Era a Busca
Desde muito pequeno
havia um silêncio dentro de mim
que ninguém via.
Eu brincava, corria, ria como qualquer criança,
mas em algum lugar do meu peito
existia uma sensação estranha —
como se algo estivesse me chamando
de muito longe.
Eu não sabia o nome disso.
Não era tristeza.
Não era solidão.
Era…
uma procura.
Eu olhava o mundo
com a sensação de que havia algo escondido
por trás de tudo.
Atrás das pessoas.
Atrás das palavras.
Atrás do próprio céu.
E mesmo sem entender,
eu comecei a caminhar.
Cresci carregando essa inquietação silenciosa.
Enquanto o mundo parecia satisfeito
com as respostas prontas da vida,
eu sentia que faltava alguma coisa
que ninguém conseguia explicar.
Então comecei a buscar.
Busquei em ideias.
Busquei em livros.
Busquei em pensamentos profundos.
Busquei na ciência,
na filosofia,
nos mistérios antigos.
Busquei em mestres,
em teorias,
em caminhos que prometiam revelar a verdade.
Mas quanto mais eu aprendia,
mais a pergunta crescia dentro de mim.
Durante muito tempo pensei
que eu buscava conhecimento.
Depois achei
que buscava sentido.
Mais tarde imaginei
que procurava algum segredo do universo,
uma chave escondida
capaz de explicar tudo.
E segui assim por anos…
Caminhando.
Perguntando.
Sentindo.
Até que um dia,
num instante de silêncio profundo,
algo mudou.
Não houve trovões.
Não houve revelação grandiosa.
Apenas um momento de lucidez.
Percebi algo simples
e ao mesmo tempo imenso:
em todos os lugares onde procurei,
eu sempre levei comigo
aquele que procurava.
E então a pergunta virou-se para mim.
Quem estava buscando?
Foi nesse instante
que algo dentro de mim
se abriu como um horizonte.
Eu compreendi.
A busca nunca foi pelo mundo.
Nunca foi pelos livros.
Nunca foi pelas respostas.
A busca sempre foi
por mim.
Eu procurava o que existia
antes dos meus pensamentos.
Eu procurava
o silêncio que observa.
Eu procurava
a presença que percebe.
Eu procurava
a consciência que habita dentro de mim
desde o primeiro instante da vida.
E naquele momento
algo se aquietou.
Não porque a jornada terminou.
Mas porque finalmente entendi
o que sempre esteve acontecendo.
Eu não era um homem procurando a verdade.
Eu era a verdade
aprendendo a reconhecer a si mesma.
Desde criança
a vida me conduzia
como um rio silencioso
em direção ao mesmo lugar.
Para dentro.
Hoje caminho diferente.
Não corro mais atrás das respostas
como quem tenta capturar o infinito.
Eu caminho
escutando.
Observando.
Sentindo.
Porque agora sei
que o mistério que eu perseguia
desde o início da minha vida
sempre esteve aqui.
Respirando comigo.
Olhando o mundo
através dos meus olhos.
E quando percebo isso
com o coração aberto e quieto,
sinto algo profundo se instalar dentro de mim:
a paz de quem finalmente entendeu
que nunca esteve perdido.
Eu apenas estava
aprendendo
a me encontrar.
-
Autor:
Gilberto Lima (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 9 de março de 2026 01:19
- Comentário do autor sobre o poema: Desde a infância, sempre senti que havia algo além do que os olhos comuns costumam perceber. Enquanto muitas crianças apenas brincavam com o mundo, eu observava o mundo brincando com as perguntas dentro de mim. Havia uma curiosidade silenciosa que me acompanhava — uma vontade de entender não apenas as coisas, mas o que existe por trás delas. Com o tempo, fui aprendendo algo essencial: olhar não é o mesmo que enxergar. O olhar é automático; enxergar é um despertar da consciência. E essa aprendizagem não veio apenas de livros ou teorias, mas sobretudo da convivência e das conversas com pessoas sábias de si mesmas — aquelas raras pessoas que, antes de entender o mundo, aprenderam a compreender a própria consciência. Esses encontros foram verdadeiros faróis na minha trajetória. Em diálogos simples, muitas vezes silenciosos, percebi que a sabedoria não está em acumular respostas, mas em aprofundar perguntas verdadeiras. Assim, minha caminhada foi se tornando menos uma busca pelo exterior e mais um processo de reconhecimento interior. Aprendi que a consciência, quando observada com honestidade, se torna a maior escola que um ser humano pode frequentar. E talvez seja justamente isso que este texto representa: não um conjunto de certezas, mas o registro de uma jornada — a jornada de aprender a olhar… até finalmente começar a enxergar.
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 3

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