V - Uso

Noétrico

Não busca saída.
Apenas reorganiza onde pisa,
reestruturando as paredes do real.

O corpo que pesa
insiste em ser chão.
Aceite o peso e siga,
sem mapa,
sem guia.

A mente, mente
quando pede abrigo.
Não há silêncio.
Ruído.
Use-a como lâmina curta:
para cortar, não para morar.

O mundo oferece moldes.
Reconheça-os.
Use quando convir.
Descarte quando cessar a função.

Nada cai do alto.
Nada se revela inteiro.
O real se mantém
porque alguém sustenta.

Eu sustento
o que escolho operar.
Não nego o caos,
ele não precisa de permissão.
Não persigo sentido,
ele apodrece quando fixado.

Faço do limite
um instrumento provisório.
Do erro, ajuste fino.
Da queda, leitura.

Não sou livre.
Sou consciente do custo.

O tempo não guia.
O passado informa.
O futuro tensiona.
O presente decide.

Perco a cada escolha.
Pago.
Assino.
Sigo.

Nada me salva.
Nada me condena.
A realidade responde ao uso.
E eu
a uso.

  • Autor: Noétrico (Offline Offline)
  • Publicado: 3 de março de 2026 09:27
  • Comentário do autor sobre o poema: Este poema é o lembrete de que nada virá organizar o mundo por mim. Se o real se mantém, é porque eu o sustento. Não há revelação, nem resgate — há escolha, custo e operação. “Uso” é a consciência de que não controlo tudo, porém respondo pelo modo como utilizo o que há. É a sequência final do grupo "Acordar", "Lençol", "Tecelã" e "Grito".
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 2


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