Ao próximo morador da minha casa,
peço cuidado.
Não daqueles aprendidos em manual,
mas do cuidado que se tem
com aquilo que sangrou para existir.
Gastei aqui mais do que dinheiro.
Gastei noites, nervos,
a paciência que não voltou
e pedaços inteiros da saúde
física e mental.
Cada centímetro quadrado
carrega algo que fui.
Nada aqui é neutro.
As paredes sabem.
Olhe-a com os olhos nus,
despidos de pressa, de expectativas,
de quem você acha que é.
Eu fiz isso.
Passei horas encarando seus cantos,
medindo silêncios,
aceitando, pouco a pouco,
que um dia ela seria abrigo de outro corpo,
outra história.
Como tudo na vida.
Nada tem dono.
Nada é nosso.
Somos apenas passagem
com a ilusão de permanência.
Se encontrar algum poema mal rabiscado
sob um reboco que caiu por cansaço,
saiba: ali também fiquei eu.
Escondido, mas inteiro.
Se notar manchas amareladas,
não são infiltrações.
São lágrimas.
Soluços contidos.
Medo, raiva, tristeza
que não couberam em mim
e precisaram escorrer por aqui.
Ela foi testemunha.
Da minha intensidade como ser.
Da minha indiferença fingida
diante da finitude.
Cuide dela.
Ame-a.
Eu fiz isso
Do jeito que pude.
E entenda:
isso não fala só de paredes,
cimento ou telhado.
Há casas que respiram.
E há lugares onde morei
sem nunca ter chave,
sem contrato,
sabendo desde o início
que a estadia era temporária.
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Autor:
Maicon Rigon (
Offline) - Publicado: 1 de março de 2026 07:44
- Categoria: Amor
- Visualizações: 2

Offline)
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