Você saiu leve
como quem larga uma mochila velha na beira da estrada.
Eu fiquei pesada,
cheia de perguntas que não cabem no bolso.
Me machucar, curou você?
Foi preciso arrancar pedaços meus
pra você costurar seus próprios rasgos?
Foi necessário que eu sangrasse em silêncio
pra você finalmente dormir em paz?
Tem gente que transforma o outro em remédio.
Toma em doses altas,
usa até o fim,
e quando melhora…
descarta a embalagem.
Eu fui abrigo em dia de tempestade.
Fui colo quando o mundo te empurrou.
Fui calma quando sua cabeça era guerra.
E quando a chuva passou,
você fechou a porta —
do lado de fora, eu.
Me machucar, curou você?
Porque aqui,
onde você deixou o vazio,
cresceu uma ausência barulhenta.
Meu riso anda com muletas.
Meu coração aprendeu a desconfiar do toque.
Mas há uma verdade que você não percebeu:
quem cura às custas do outro
não fica inteiro —
fica dependente de novas feridas.
Eu, mesmo quebrada,
estou aprendendo a recolher meus cacos
com cuidado de quem entende
que não nasceu para ser hospital de ninguém.
Se a minha dor foi o seu alívio,
que ela ao menos me ensine
a nunca mais me oferecer
como remédio
pra quem nunca quis ser cura pra mim.
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Autor:
Brunna Keila (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 1 de março de 2026 01:31
- Categoria: Triste
- Visualizações: 3
- Usuários favoritos deste poema: Apegaua

Offline)
Comentários1
Desculpas, por se apresentar em terras que nunca pisei.
Mas ao ler o seu lamento e por razão que não fugiu do raciocínio.
Se não pronunciar um bravo, estaria contribuindo, para se aumentar as hordas dos mau fadados.
Muito bom o seu dito, se o vos ler com interpretação.
Ficar bem, Mestra poética.
Apegaua.
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