Aqui Termina o Idioma em Que Eu Te Amava I

Marcos Marinho



Eu tenho o título.
Ele pesa como porta fechada depois da última visita.
Mas não sei onde começo,
porque tudo o que começo ainda te pronuncia. 

 

Talvez eu devesse iniciar

pela primeira palavra que inventamos sem saber

aquele riso torto no meio da tarde,

a forma como teu nome cabia no meu silêncio

como se silêncio fosse casa.

 

Nós falávamos um dialeto secreto.

Feito de olhares demorados,

de mensagens que diziam "chegou?"

quando queriam dizer "fica".

Feito de mãos que não pediam permissão,

porque já eram território.

 

Eu era fluente 

na curvatura do teu ombro

na vírgula da tua dúvida

no ponto final das tuas crises,

Sabia conjugar teu medo no futuro

e transformar em presente.

 

 

Toda língua tem fronteira.

 

 

Um dia percebi

que nossas frases começaram a falhar na tradução.

Teu "tudo bem" virou muralha.

Meu "eu entendo" virou despedida disfarçada.

E aquilo que antes era ponte

virou gramática de guerra.

 

Eu tentei reaprender.

Troquei acentos,

resivei memórias,

corrigi a entonação da culpa.

Mas amor não se salva

com dicionário.

 

Há palavras que caem

antes da boca.

Há promessas que perdem o verbo.

E há um instante exato

em que o coração decide

ficar estrangeiro.

 

 

Então é aqui.

 

Aqui termina o idioma em que te amava.

Não porque deixei de amar

mas porque já não sei mais

como dizer.

 

O que eu sinto agora

não cabe na sintaxe que construímos.

Não reconhe nossos tempos verbais.

É um sentimento sem pátria,

andando descalço entre ruínas de conversa.

 

Se um dia você ouvir meu nome

e ele soar distante,

não é frieza

é tradução falha.

 

Eu estou aprendendo outra língua.

Uma que não implore,

que não se curve,

que não confunda silêncio com esperança.

 

Aqui termina

a pronúncia suave do teu riso na minha boca.

Aqui termina

o alfabeto que escrevi com teus dedos na minha pele.

Aqui termina

a frase que nunca teve coragem de acabar.

 

E se você me perguntar

onde começa o que vem depois

eu direi que ainda não sei.

Mas sei exatamente

onde terminou.

  • Autor: Marcos Marinho (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 28 de fevereiro de 2026 19:02
  • Comentário do autor sobre o poema: Algumas histórias não terminam de repente.\\\\r\\\\nElas perdem a tradução.\\\\r\\\\nEsta é a primeira parte.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 2


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