Eu tenho o título.
Ele pesa como porta fechada depois da última visita.
Mas não sei onde começo,
porque tudo o que começo ainda te pronuncia.
Talvez eu devesse iniciar
pela primeira palavra que inventamos sem saber
aquele riso torto no meio da tarde,
a forma como teu nome cabia no meu silêncio
como se silêncio fosse casa.
Nós falávamos um dialeto secreto.
Feito de olhares demorados,
de mensagens que diziam "chegou?"
quando queriam dizer "fica".
Feito de mãos que não pediam permissão,
porque já eram território.
Eu era fluente
na curvatura do teu ombro
na vírgula da tua dúvida
no ponto final das tuas crises,
Sabia conjugar teu medo no futuro
e transformar em presente.
Toda língua tem fronteira.
Um dia percebi
que nossas frases começaram a falhar na tradução.
Teu "tudo bem" virou muralha.
Meu "eu entendo" virou despedida disfarçada.
E aquilo que antes era ponte
virou gramática de guerra.
Eu tentei reaprender.
Troquei acentos,
resivei memórias,
corrigi a entonação da culpa.
Mas amor não se salva
com dicionário.
Há palavras que caem
antes da boca.
Há promessas que perdem o verbo.
E há um instante exato
em que o coração decide
ficar estrangeiro.
Então é aqui.
Aqui termina o idioma em que te amava.
Não porque deixei de amar
mas porque já não sei mais
como dizer.
O que eu sinto agora
não cabe na sintaxe que construímos.
Não reconhe nossos tempos verbais.
É um sentimento sem pátria,
andando descalço entre ruínas de conversa.
Se um dia você ouvir meu nome
e ele soar distante,
não é frieza
é tradução falha.
Eu estou aprendendo outra língua.
Uma que não implore,
que não se curve,
que não confunda silêncio com esperança.
Aqui termina
a pronúncia suave do teu riso na minha boca.
Aqui termina
o alfabeto que escrevi com teus dedos na minha pele.
Aqui termina
a frase que nunca teve coragem de acabar.
E se você me perguntar
onde começa o que vem depois
eu direi que ainda não sei.
Mas sei exatamente
onde terminou.
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Autor:
Marcos Marinho (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 28 de fevereiro de 2026 19:02
- Comentário do autor sobre o poema: Algumas histórias não terminam de repente.\\\\r\\\\nElas perdem a tradução.\\\\r\\\\nEsta é a primeira parte.
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2

Offline)
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