As que vieram antes

Amanda S. Moraes

 

Antes dos livros que contam vitórias,

houve vozes guardadas no pó das memórias,

nomes que o tempo tentou apagar

como quem teme uma chama ao queimar.

 

Mulheres que pensavam à luz de velas curtas,

misturando ciência a ervas e perguntas,

mãos que curavam sem pedir permissão

e por isso aprenderam o peso da fogueira e da acusação.

 

Chamaram de bruxaria o que era saber,

de histeria o que era perceber,

de pecado a coragem de amar sem pedir perdão

e ainda assim elas semearam futuro com o próprio coração.

 

Nos claustros, nas cozinhas, nos laboratórios invisíveis,

em cartas nunca enviadas, em cadernos ilegíveis,

nasceu filosofia entre panelas e estrelas,

porque pensar nunca foi privilégio,

foi sede dentro delas.

 

Há uma fertilidade que não é só de ventre,

mas de ideia, de cuidado, de olhar que sente,

uma capacidade antiga de sustentar o mundo

enquanto o próprio mundo as empurrava ao fundo.

 

Elas descobriram continentes dentro do pensamento,

revoluções discretas no cotidiano lento,

inventaram linguagens para nomear o invisível

e provaram que o afeto também é conhecimento tangível.

 

Amaram em tempos que proibiam amar,

trabalharam sem direito de assinar,

rezaram a deuses que também as temiam

porque sabiam que mulheres conscientes não se curvam,

expandiam.

 

Hoje seus nomes ecoam em teses e avenidas,

mas poucas sabem o preço dessas vidas,

nosilêncio imposto, no talento roubado,

no amor interrompido, no sonho adiado.

 

Ainda assim elas floresceram.

 

Como quem entende que existir já é revolução,

que ternura também é forma de insurreição,

que inteligência não precisa levantar a voz

para redesenhar o destino de todos nós.

 

E seguimos, herdeiras do que não foi contado,

carregando no sangue o impossível que foi tentado,

sabendo que cada passo que hoje parece comum

foi um gesto proibido de alguém que veio antes de algum.

 

Ser mulher é lembrar e mesmo sem saber de quem,

que dentro de nós caminham muitas além,

uma multidão de risos, lutos e descobertas

que transformaram portas fechadas em frestas abertas.

 

E é por isso que quando uma mulher cria,

não é só talento,

é uma genealogia,

um coro antigo cantando em nova voz

que o futuro sempre começou em nós.

 

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de fevereiro de 2026 12:02
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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