Antes dos livros que contam vitórias,
houve vozes guardadas no pó das memórias,
nomes que o tempo tentou apagar
como quem teme uma chama ao queimar.
Mulheres que pensavam à luz de velas curtas,
misturando ciência a ervas e perguntas,
mãos que curavam sem pedir permissão
e por isso aprenderam o peso da fogueira e da acusação.
Chamaram de bruxaria o que era saber,
de histeria o que era perceber,
de pecado a coragem de amar sem pedir perdão
e ainda assim elas semearam futuro com o próprio coração.
Nos claustros, nas cozinhas, nos laboratórios invisíveis,
em cartas nunca enviadas, em cadernos ilegíveis,
nasceu filosofia entre panelas e estrelas,
porque pensar nunca foi privilégio,
foi sede dentro delas.
Há uma fertilidade que não é só de ventre,
mas de ideia, de cuidado, de olhar que sente,
uma capacidade antiga de sustentar o mundo
enquanto o próprio mundo as empurrava ao fundo.
Elas descobriram continentes dentro do pensamento,
revoluções discretas no cotidiano lento,
inventaram linguagens para nomear o invisível
e provaram que o afeto também é conhecimento tangível.
Amaram em tempos que proibiam amar,
trabalharam sem direito de assinar,
rezaram a deuses que também as temiam
porque sabiam que mulheres conscientes não se curvam,
expandiam.
Hoje seus nomes ecoam em teses e avenidas,
mas poucas sabem o preço dessas vidas,
nosilêncio imposto, no talento roubado,
no amor interrompido, no sonho adiado.
Ainda assim elas floresceram.
Como quem entende que existir já é revolução,
que ternura também é forma de insurreição,
que inteligência não precisa levantar a voz
para redesenhar o destino de todos nós.
E seguimos, herdeiras do que não foi contado,
carregando no sangue o impossível que foi tentado,
sabendo que cada passo que hoje parece comum
foi um gesto proibido de alguém que veio antes de algum.
Ser mulher é lembrar e mesmo sem saber de quem,
que dentro de nós caminham muitas além,
uma multidão de risos, lutos e descobertas
que transformaram portas fechadas em frestas abertas.
E é por isso que quando uma mulher cria,
não é só talento,
é uma genealogia,
um coro antigo cantando em nova voz
que o futuro sempre começou em nós.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 27 de fevereiro de 2026 12:02
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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