Dança com a Sombra
Ela me espera na esquina da noite,
encostada no poste apagado da rua
onde os cães não latem
e o vento fala baixo demais para ser entendido.
Veste-se de silêncio.
Cheira a terra molhada e a promessas antigas.
Não carrega foice
carrega luvas delicadas
como quem convida para dançar.
Eu a conheço pelo nome
que não ouso dizer em voz alta.
Chamo-a de Sombra,
e ela sorri com dentes de ausência.
Veio cedo ,ela sussurra.
E sua voz é um veludo rasgado.
Não, eu não vim para ficar,
respondo, mas meus pés
já aprenderam o compasso da música que não toca.
Ela me estende a mão.
Fria , não como gelo,
mas como mármore que já esqueceu o sol.
Entrelaçamos os dedos
como dois cúmplices
que compartilham um segredo indecente.
Dançamos.
Cada passo é um flerte.
Cada giro, um quase adeus.
Ela encosta o rosto no meu
e sinto o perfume do fim
misturado ao perfume de tudo o que ainda não vivi.
Você pensa em mim
ela provoca.
E eu penso.
Penso nas madrugadas
em que o cansaço pesa mais que os ossos.
Penso nos dias em que o mundo arranha por dentro.
Penso na ideia de repousar
no colo escuro dela
como quem finalmente para de lutar contra a maré.
Ela sabe.
Ah, ela sabe.
Mas também sabe
dos nomes que carrego no peito
como medalhas de carne viva.
Sabe dos risos que ainda me puxam pela manga.
Dos abraços que me ancoram
quando meus olhos se perdem no horizonte dela.
Você ainda está amarrado
ela diz, quase com ternura.
E não há ciúme em sua voz.
Só paciência.
A Morte não corre.
Ela jamais implora.
Apenas dança melhor do que qualquer outra.
Rodopiamos outra vez.
Meu coração bate descompassado
não por medo,
mas por reconhecer nela
uma intimidade antiga,
como se tivéssemos sido apresentados
antes mesmo do meu primeiro choro.
Há cumplicidade, sim.
Ela guarda meus silêncios mais sujos,
minhas sombras mais densas.
Ela não me julga
quando confesso o cansaço
ou o desejo de desaparecer por um instante.
Mas então
como uma luz que fura a cortina pesada
vejo os rostos.
Os que amo.
Eles me chamam pelo nome
que ela nunca usa.
Suas mãos são quentes.
Suas vozes são imperfeitas e vivas.
E de repente percebo:
Eu não quero encontrá-la
antes de gastar todos os abraços.
Antes de rir até doer.
Antes de sangrar de amor
e não de ausência.
Ela percebe minha hesitação
e afrouxa os dedos.
Não é hora
murmura, com um meio sorriso
que não é cruel,
apenas inevitável.
A música silencia.
A Sombra beija minha testa
como quem marca um encontro distante.
Não há ruptura,
não há ameaça
apenas a certeza
de que um dia dançaremos até o fim da canção.
Mas não hoje.
Hoje eu volto
para os braços quentes,
para as vozes que me chamam,
para o peso doce de continuar.
E enquanto me afasto,
sinto seus olhos nas minhas costas
não como perseguição,
mas como promessa.
Ela me espera
na esquina da noite.
E eu sigo vivendo,
porque ainda há mãos
que não terminei de segurar.
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Autor:
SADE (
Offline) - Publicado: 24 de fevereiro de 2026 09:48
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
Comentários2
E ASSIM A CORDA VOLTA PARA O ARMARIO MAIS AINDA PERMANECE COM OS NÓS ... FICA PRA PROXIMA , UMA OUTRA VEZ QUEM SABE . VEJO AS HORAS APROVEITO PARA VER AS CICATRIZES NOS PULSOS DE ANOS PASSADOS , FICA PRA PROXIMA ...
Humaniza a finitude ao transformá-la em diálogo e ainda escolhe, com lucidez, continuar.
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