(Baseada numa história real)
Tempo de Gravar, Não de Entender
Existem lembranças que não se comportam como lembranças.
Elas não ficam quietas no passado. Elas voltam. Não como nostalgia, mas como cobrança.
Na infância, tudo parecia normal porque eu não tinha ferramentas para desconfiar do absurdo. A vida simplesmente acontecia, e eu aceitava. Criança não questiona o roteiro. Ela só grava. E grava bem. Como uma câmera ligada sem operador.
Anos depois, essas cenas reaparecem sem aviso, embaladas como presente atrasado. Não vêm para confortar. Vêm com uma missão silenciosa: entenda agora o que você não podia entender antes.
E a pergunta insiste, roçando por dentro como unha em vidro:
o que foi aquilo?
Não foi normal. Não foi.
Essa história nasce desse incômodo. Das bizarrices daquele tempo de dormência consciente, quando o mundo parecia comum demais para ser real.
Na escola, durante o recreio, existia a quadra. A quadra era um ecossistema próprio. Gritos, correria, palavrões reciclados de adultos que nem sabiam que tinham sido copiados. Futebol em estado bruto.
Eu não jogava. Também não torcia.
Eu assistia.
Não era desprezo, era distância. Como quem observa formigas carregando folhas sem entender por quê. Eu só queria ver o momento exato em que a bola entrava no gol. Não importava de quem. Eu torcia para o evento, não para o time.
Naquele dia, algo em mim estava fora de posição. Eu caminhava pelas bordas da quadra, aquela zona proibida onde a bola parece ter vontade própria. Sempre existe uma força invisível que faz a bola mirar exatamente o rosto de quem não está jogando. Uma espécie de lei não escrita do recreio.
Eu entrava quando a bola se afastava. Saía rápido quando ela voltava, como rajada de minigun. Estranhamente, quando a bola me acertava, era só na imaginação. No corpo, nada. Na mente, impacto total.
Foi ali que tropecei.
Pedras pequenas de concreto, esquecidas no chão como restos de uma obra mal resolvida. Pequenas o suficiente para caber na mão, grandes o bastante para causar problema. Do outro lado da quadra não havia ninguém. A ideia de atirar parecia ridícula.
Mesmo assim, atirei algumas. Não no centro. No canto. Perto de uma rampa que levava a outro espaço vazio. Um gesto sem intenção clara, como quem testa a gravidade.
O jogo acabou. O sinal tocou. Fim de fase.
Na saída, o clima mudou.
Um dos jogadores surgiu transtornado, eufórico, nervoso demais para alguém que tinha acabado de brincar. Mancava. Apontava o pé. Dizia ter se machucado com pedras jogadas na quadra.
Alguém disse meu nome.
Disse que tinha me visto jogando pedras.
O formando metido a jogador veio na minha direção. Dois metros de altura na minha memória. Provavelmente menos na realidade. Não importa. Criança mede ameaça em toneladas.
Eu travei.
Não consegui falar. Não consegui piscar. Meu corpo entrou naquele modo específico que só crianças conhecem: o congelamento absoluto diante do proibido. Ele gritava palavras grandes demais para mim, palavrões que fazem bebês chorarem sem saber por quê.
— Por que tu tava jogando pedra? Tu é doido? Vai pra diretoria! Olha meu pé! Foi tu, não foi? Fala, moleque!
Nada saiu da minha boca.
Meus olhos ficaram presos no rosto dele, como se desviar fosse admitir culpa. As lágrimas começaram a se formar sem permissão. Um alarme silencioso.
Os colegas perceberam. Olharam melhor o pé. Não parecia tão grave. A certeza evaporou. Eles recuaram. Adultos em miniatura, de repente conscientes de que tinham ido longe demais.
Pediam desculpa. Foram embora.
Eu fiquei.
Enquanto andava, uma lembrança emergiu com atraso: eu tinha visto outra pessoa jogando pedras maiores no meio da quadra. Não eu. Não aquelas que atirei no canto. Mas alguém. Alguém que nunca apareceu na acusação.
O alívio veio tarde, mas veio.
O episódio terminou sem diretoria, sem punição, sem explicação.
Mesmo assim, algo ficou mal encaixado.
Eu estava no lugar errado, na hora errada.
Ou talvez no lugar certo para testemunhar algo que ainda não entendi.
E essa é a parte que não se resolve com lógica.
Porque o recreio acabou.
Mas a sensação nunca foi embora.
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Autor:
Fontrazy (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 23 de fevereiro de 2026 10:25
- Comentário do autor sobre o poema: Contém traços de uma personalidade desconhecida pelo autor e que está sendo investigada no momento. Em 23 de FEV. 2026
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 3

Offline)
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