Na Contramão do Previsível

Luana Santahelena


Chamaram-me de louca
porque recusei o espelho
que só refletia o que esperavam de mim.
***
Troquei a bússola alheia
por um ímã no peito —
desregulado, dizem.
Eu digo: vivo.
***
Se ser sensata é podar
as próprias asas
para caber no teto baixo da aprovação,
prefiro bater a cabeça no céu.
***
Minha loucura não é ruído,
é nitidez demais.
Vejo as grades
que chamam de “jeito certo”.
***
Rasgo o manual.
Assino meu erro com glitter.
Faço da dúvida um palco.
***
Sou excesso, sim —
de riso, de risco, de mim.
***
E se isso é delírio,
que me deixem delirando lúcida
na contramão do previsível.


Na contramão do previsível,
acendo luz nos próprios passos
e caminho mesmo sem mapa.
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Chamam de exagero
o que é só coragem sem freio.
Não sabem —
medo também fala alto.
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Desaprendi a pedir licença
pra ocupar meu espaço.
Se incomoda, paciência.
Passei tempo demais encolhido.
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Quando tropeço, levanto.
Quando erro, assumo.
Não faço drama —
faço caminho.
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Não nasci pra caber.
Nasci pra ser inteiro.
Se for grande demais pra alguns,
que aprendam a lidar.
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Minha tal “loucura”
é só liberdade sem manual.
E eu não sigo roteiro
que não fui eu quem escrevi.
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Sigo firme —
imperfeito, mas meu.
Se tentarem me dobrar,
volto mais forte.
E se isso é delírio,
então me deixem assim:
lúcido o bastante
pra nunca mais diminuir quem eu sou.


Assim sou eu livre leve e solta
Não me prendo a nada e nem a ninguém
a liberdade é meu lema
me aceite do jeito que sou.
Tenho minha luz própria não
vivo nas sombras de ninguém.
Nessa contra mão do previsível
vivo sem amarras
acreditando sempre na força do sobrenatural
que aos poucos tece minhas loucuras existenciais.


Carrego tempestade no bolso
e ainda assim me chamam de exagero —
como se o mundo não fosse feito
de coisa grande por dentro.
Eu não grito por vaidade:
grito porque a minha voz
aprendeu a não caber na gaveta.Se tento me medir, a régua quebra.
Se tento me explicar, a frase falha.
Não é confusão:
é que eu sinto em volume alto
o que muita gente vive no mudo.Eu faço do “não pode” um empurrão.
Do “vai dar errado” um ensaio.
Do “que feio” um brilho.
Me ensinaram a ser pequena
pra ser amada sem susto —
e eu desaprendi com gosto.Tenho cicatrizes que viraram janela,
tenho quedas que viraram ponte,
tenho perdas que viraram bússola
e apontam sempre pra mim.
Quem disse que firmeza é linha reta?
Eu sou curva, sou maré, sou vento teimoso
batendo na porta do impossível
até ele lembrar que também cansa.Não me peçam calma
quando o meu sangue é faísca.
Não me peçam jeito
quando o meu jeito é ser inteira.
Eu me escolho —
mesmo torta, mesmo intensa, mesmo humana —
porque a única prisão que eu temo
é voltar a ser rascunho.E se insistirem em me chamar de louca,
que chamem.
Eu sigo.
Com a liberdade acesa no peito,
na contramão do previsível,
delirando lúcida
com a coragem de existir sem pedir tradução.

  • Autores: Bulaxa Kebrada (Pseudónimo, Melancolia..., Rosangela Rodrigues de Oliveira, Jairo Cícero
  • Visível: Todos os versos
  • Publicado: 23 de fevereiro de 2026 10:25
  • Limite: 10 estrofes
  • Convidados: Público (qualquer usuário pode participar)
  • Comentário do autor sobre o poema: Disseram que eu estava errada por não aceitar o papel que escreveram para mim, mas escolhi confiar na minha própria intuição, mesmo que ela pareça desajustada aos olhos dos outros. Preferi arriscar e aprender com minhas quedas a viver encolhida para caber nas expectativas alheias. O que chamam de exagero é só intensidade; o que rotulam de desatino é clareza demais para um mundo acostumado a obedecer sem questionar. Se seguir meu próprio caminho parece imprudente, então que seja — há mais verdade em viver com coragem do que em existir por aprovação.
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