Há uma tarde

Ricardo Maria Louro

Há uma tarde fechada por dentro

caiada de sonhos e cansaços ...

 

Um quase silêncio vestido de Fado

que ultrapassa a solidão de quem

o canta.

 

Um quase poema feito de palavras

que não há mas que a Alma sente

e vê.

 

Um suspiro de marujo num barco

em alto mar ao sabor das ondas

indiscretas.

 

Uma vontade de ir mais além,

p'ra lá da vida, p'ra lá da morte,

numa busca incessante.

 

Que triste tarde fechada por dentro

caiada de sonhos e cansaços ...

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Comentários3

  • José Francisco de Morais

    Este poema constrói uma atmosfera profundamente introspectiva e melancólica, marcada por uma sensação de clausura interior. Logo no primeiro verso — “Há uma tarde fechada por dentro” — a tarde deixa de ser apenas um momento do dia e transforma-se num estado de alma, simbolizando recolhimento, cansaço emocional e solidão.

    A expressão “caiada de sonhos e cansaços” sugere uma tentativa de revestir ou ocultar sentimentos, como se os sonhos e o desgaste fossem camadas que cobrem o sujeito poético. Há aqui uma dualidade entre esperança (sonhos) e exaustão (cansaços), revelando conflito interior.

    O verso “Um quase silêncio vestido de Fado” reforça a identidade cultural portuguesa e evoca a saudade, a dor contida e o destino. O “quase silêncio” indica algo que não chega a ser dito plenamente, mas que se sente intensamente — tal como o próprio fado, que ultrapassa palavras e toca o íntimo de quem o canta e de quem o escuta.

    Ao longo do poema, repete-se a estrutura “Um quase…”, o que transmite uma ideia de incompletude, de algo que está sempre prestes a acontecer mas nunca se concretiza totalmente. Essa repetição reforça a sensação de busca e de indefinição existencial.

    A imagem do “suspiro de marujo num barco / em alto mar” introduz o mar como símbolo tradicional de viagem, incerteza e destino. O sujeito parece à deriva, levado pelas “ondas indiscretas”, o que pode representar forças externas ou emoções que escapam ao controlo.

    Por fim, a vontade de ir “p’ra lá da vida, p’ra lá da morte” intensifica o tom existencial do poema. Não se trata necessariamente de desejo de fim, mas antes de uma procura transcendental, de algo que ultrapasse os limites da condição humana.

    O poema encerra retomando o primeiro verso, criando um efeito circular que reforça a ideia de aprisionamento interior. Assim, trata-se de um texto marcado pela saudade, solidão, incompletude e busca de sentido, com forte carga simbólica e emocional.

  • Oswaldo Jesus Motta

    Silêncio que canta, alma que busca...Belas palavras, Poeta! Abraço poético.

  • Maria dorta

    Seu poema tem excelente qualidade artística e muita sensibilidade poética. Gostei de le_lo. Parabéns!



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