Até ontem eu era feliz.

Brunna Keila

Até ontem eu era feliz.

E não era uma felicidade dessas que fazem barulho,

era dessas mansas, que moram na beira da tarde,

no café ainda quente,

na mensagem que chega sem aviso,

no nome que acende a tela e também o peito.

Até ontem eu era feliz

como quem não sabe que é.

Porque a felicidade, às vezes,

é distraída.

Ela entra sem bater,

senta na sala,

e a gente nem percebe que ela está ali.

Eu era feliz no jeito simples de esperar o amanhã,

sem medo do silêncio,

sem esse peso nas horas.

O tempo corria leve —

não como agora,

que tropeça em cada lembrança.

Até ontem eu era feliz

e achava que felicidade era coisa permanente,

igual parede de casa.

Mas descobri que ela é mais parecida com vento:

a gente sente,

mas não segura.

Hoje eu olho para trás

como quem olha uma fotografia antiga

e pensa:

“eu não sabia, mas ali…

ali eu estava inteira.”

Talvez a felicidade seja isso:

um instante que só ganha nome

quando vira saudade.

E ainda assim,

mesmo com esse gosto agridoce na boca do dia,

eu guardo uma esperança miúda —

de que a felicidade,

teimosa como é,

volte sem avisar

e me encontre outra vez

distraída.



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