A VIRTUDE DE NÃO SE RENDER
E se um dia eu cair,
que não seja por covardia,
mas por cansaço honesto.
Mas, antes que essa má hora chegue,
que o corpo seminu de São Sebastião,
cravado de flechas e ainda respirando,
seja minha lembrança diária
de que é possível sangrar
e permanecer de pé.
Eu não o venero como um mártir rendido,
mas como legionário romano,
homem treinado para suportar o peso da armadura e o peso da dor.
Homem que foi atravessado
e não caiu na primeira sentença.
As velas que eu acendo não pedem intercessão.
São agradecimento e respeito
ao soldado que suportou o primeiro ataque
e sobreviveu às próprias flechas.
Por isso Não aceito Desculpas bonitas
Nem discursos prontos.
Pois acredito que a Ofensa não é acidente.
É decisão tomada com café quente
e consciência limpa.
Quem fere sabe onde mira.
E quem tem tempo de mirar,dispara por prazer.
Fui alvo mas não
mas não me faço de santo.
Para posar de vítima.
Sou apenas homem suficiente
para continuar respirando
enquanto me atravessavam
com gosto e premeditação.
As flechas que recebi
também não vieram em guerra.
Vieram em lugares santos.
Vieram sentadas ao meu lado,
com tapas nas costas e palavras macias
enquanto afiava a ponta.
Não sangrei como nos romances.
Mas foi de um jeito fino…Discreto…
Como um soldado disciplinado
que não grita para não satisfazer o agressor.
Cada flecha entrou com delicadeza.
Como quem pede licença para humilhar.
Como quem ofende em tom baixo
e depois chama de “brincadeira”.
E o pior golpe nunca será o primeiro.
Mas sempre o último
aquele que vem quando você já está cansado
de se defender e ainda assim exigem que você sorria.
Querem perdão?
Claro que querem.
Ofender cansa,
mas pedir absolvição é sempre confortável.
Pois saibam:
não perdoo.
Não por ódio,
mas por lucidez.
O perdão exige fé no arrependimento.
E eu perdi a fé nos ofensores profissionais.
Ironia e deboche, sim.
Essa eu vou sempre cultivar.
Ela não absolve ninguém,
mas mantém a coluna ereta
e o agressor desconfortável.
Porque quem não se ajoelha
não confirma a própria culpa.
E quem permanece de pé,
mesmo crivado,obriga o ou
tro a encarar o próprio reflexo.E isso
é o pior castigo que se pode oferecer.
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Autor:
C.araujo (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 22 de fevereiro de 2026 12:01
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3

Offline)
Comentários1
Parabéns pelo poema quase um inventário de vida. Ve_ se que o poeta foi forjado nas agruras da vida e na poesia joga toda sua corajosa luta,seu ideário de vida sem se render a'voler desdita. E tem verdadeira contrição por esse santo guerreiro. Axé!
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