Processo Criativo

Versos Discretos

Diante do alvo pergaminho de tua pele,
Minha pena hesita, trêmula de desejo contido,
Antes de desatar os nós de seda da primeira estrofe.
Vou te despindo de metáforas e adjetivos vãos,
Revelando a nudez crua da tua sintaxe,
Onde cada curva é um verso que clama por ser lido.

Meus lábios, tradutores de um anseio antigo,
Percorrem os relevos de tua anatomia poética,
Beijando a margem de teus flancos com a urgência da rima.
Sinto o aroma do estro que de ti emana,
Uma fragrância de musa e de fêmea,
Que incendeia o verbo e torna a tinta rubra.

Com a língua vernácula, exploro teus abismos,
Mergulhando no cálice onde a vida se concentra.
Ali, onde a poesia se faz carne e secreção,
Sorvo o néctar sagrado de tua flor mais secreta,
Em movimentos rítmicos, cadenciados pela sofreguidão,
Até que o gemido se torne a métrica perfeita.

O sangue pulsa nas veias, esticando a frase,
Enquanto o meu ser, em riste, busca o teu centro.
É o momento da epifania, do choque das substâncias,
Onde o autor e a obra se fundem num único espasmo.
No ápice do verso, na explosão do ponto final,
Derramo em ti toda a gênese de minha alma,
Exausto, sagrado, em um silêncio de pós-escrito.



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