Ontem, o sono demorou a vir.
A mente repetia: "estou bem, estou forte,
sou feita de aço e maré",
mas o corpo, aquele traidor fiel
respondeu em língua ancestral:
aperto no peito, como se o mundo
tivesse esquecido de respirar comigo,
gotas salgadas escorrendo sem motivo,
o corpo pedindo um colinho.
E quando finalmente mergulhei
no reino dos sonhos,
pensei que ali estaria livre.
Mas até os sonhos têm memória.
Lá, revivi um dia qualquer ou todos os dias em um só,
onde tive que ser forte,
algumas vezes adulta,
outras, criança;
onde precisei aprender a sorrir,
a calar o choro
para que as coisas não ficassem piores.
E quando os sonhos se misturam,
e as coisas são tão reais que mechem por dentro.
E mesmo dormindo,
mesmo no mundo onde tudo é possível,
doeu.
Doeu e ainda dói, como se a alma tivesse nervos
e cada um deles guardasse memória
das vezes em que me disseram
que eu era demais,
ou de menos,
ou errada,
ou incômoda.
Das vezes em que estendi as mãos sem cálculo,
ofereci ideias como quem oferece abrigo,
entreguei tempo, presença, paciência,
os meus sentimentos mais íntegros,
e caminhei por causas justas
com o coração aberto demais para a lógica do mundo.
E houve quem confundisse luz com disponibilidade,
quem tomasse cuidado por fraqueza,
quem bebesse da minha boa-fé
como se fosse fonte inesgotável,
sem perceber que até as fontes
também
precisam ser protegidas.
Há feridas que não sangram vermelho.
Há dores que não têm nome no dicionário.
Há verdades que pesam tanto
que a gente engole antes que saiam da boca,
e elas descem como pedras
até o fundo do estômago,
onde permanecem guardadas
como segredos que nunca serão contados.
Mas esses pontos fracos,
esses pontos de orvalho onde a luz se quebra,
são também onde a poesia nasce.
Porque quem nunca quebrou
nunca soube como é
reconstruir-se em verso,
em metáfora,
em algo tão belo
que até a dor se apaixona
por si mesma.
Guerreira,
forte por fora,
frágil nos lugares certos,
guardando no peito
um oceano inteiro de coisas não ditas
que talvez, um dia,
alguém se identifique
e compreenda sem precisar perguntar.
Até lá,
sigo sendo montanha de dia
e rio de noite,
carregando no leito
todas as pedras
que um dia me lançaram,
transformando-as, devagar,
em areia onde outros poderão
descansar os pés.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 20 de fevereiro de 2026 23:35
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1

Offline)
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