Ponto fraco

Amanda S. Moraes

Ontem, o sono demorou a vir.

 

A mente repetia: "estou bem, estou forte,

sou feita de aço e maré",

mas o corpo,  aquele traidor fiel

respondeu em língua ancestral:

aperto no peito, como se o mundo

tivesse esquecido de respirar comigo,

gotas salgadas escorrendo sem motivo,

o corpo pedindo um colinho.

 

E quando finalmente mergulhei

no reino dos sonhos,

pensei que ali estaria livre.

Mas até os sonhos têm memória.

 

Lá, revivi um dia qualquer ou todos os dias em um só,

onde tive que ser forte,

algumas vezes adulta,

outras, criança;

onde precisei aprender a sorrir,

a calar o choro

para que as coisas não ficassem piores.

E quando os sonhos se misturam,

e as coisas são tão reais que mechem por dentro.

 

E mesmo dormindo,

mesmo no mundo onde tudo é possível,

doeu.

 

Doeu e ainda dói, como se a alma tivesse nervos

e cada um deles guardasse memória 

das vezes em que me disseram

que eu era demais,

ou de menos,

ou errada,

ou incômoda.

 

Das vezes em que estendi as mãos sem cálculo,

ofereci ideias como quem oferece abrigo,

entreguei tempo, presença, paciência,

os meus sentimentos mais íntegros,

e caminhei por causas justas

com o coração aberto demais para a lógica do mundo.

 

E houve quem confundisse luz com disponibilidade,

quem tomasse cuidado por fraqueza,

quem bebesse da minha boa-fé

como se fosse fonte inesgotável,

sem perceber que até as fontes

também

precisam ser protegidas.

 

Há feridas que não sangram vermelho.

Há dores que não têm nome no dicionário.

Há verdades que pesam tanto

que a gente engole antes que saiam da boca,

e elas descem como pedras

até o fundo do estômago,

onde permanecem guardadas

como segredos que nunca serão contados.

 

Mas esses pontos fracos,

esses pontos de orvalho onde a luz se quebra,

são também onde a poesia nasce.

Porque quem nunca quebrou

nunca soube como é

reconstruir-se em verso,

em metáfora,

em algo tão belo

que até a dor se apaixona

por si mesma.

 

Guerreira,

forte por fora,

frágil nos lugares certos,

guardando no peito

um oceano inteiro de coisas não ditas

que talvez, um dia,

alguém se identifique

e compreenda sem precisar perguntar.

Até lá,

sigo sendo montanha de dia

e rio de noite,

carregando no leito

todas as pedras

que um dia me lançaram,

transformando-as, devagar,

em areia onde outros poderão

descansar os pés.

 

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de fevereiro de 2026 23:35
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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