Rubem dizia que a vida não é uma equação para ser resolvida, é um mistério para ser sentido. E eu fico pensando que a gente acorda todos os dias fingindo que está tudo como deve ser — mas há tanta coisa fora do lugar dentro de nós.
Tem dias em que o corpo dói. Outras vezes é a alma que adoece primeiro e o corpo só acompanha. A tristeza chega sem bater na porta, senta na beira da cama e fica. A angústia aperta o peito como se o coração tivesse desaprendido o próprio ritmo. O câncer — palavra que pesa — não invade só células, invade a casa inteira, muda o cheiro dos quartos, transforma o futuro em um calendário cheio de interrogações.
E os velhos… ah, os velhos. Carregam no corpo o cansaço do mundo. As mãos tremem, a memória falha, os passos encurtam. Doenças que parecem dizer: “é quase hora”. E a gente não sabe se segura ou se aprende a soltar. Porque amar também é aprender a despedir-se devagar.
Enquanto isso, lá fora, a cidade corre. Acorda antes do sol, dorme depois do cansaço. Gente espremida em ônibus, gente correndo atrás de dinheiro, de metas, de aprovação. A sociedade ensina que sentir é perda de tempo. Que produtividade é virtude. Que chorar é fraqueza. Mas ninguém vê as lágrimas que caem no travesseiro quando a luz se apaga.
E a desigualdade… essa não é metáfora. Ela tem endereço. Mora onde falta pão, falta remédio, falta oportunidade. Há quem escolha o sabor do café da manhã. Há quem escolha entre comer ou pagar a conta de luz. Uns adoecem de excesso. Outros adoecem de ausência.
No meio disso está a escola — esse lugar que deveria ser jardim. Em A alegria de ensinar, Rubem Alves fala da alegria que deveria brotar no ensinar. Mas também nos faz pensar no silêncio dos alunos. Falam do sofrimento dos professores — e é real, é duro — mas quem escuta o coração da criança que chega com fome? Quem percebe o adolescente que sorri alto para ninguém descobrir o buraco que carrega por dentro?
Ensina-se a conjugar verbos, mas não se ensina a conjugar dores. Cobra-se silêncio, mas ninguém escuta o grito invisível. A escola mede notas, mas não mede saudade, medo, solidão.
E Deus… talvez Ele não esteja nas respostas prontas, mas nas perguntas que nos desmontam. Talvez esteja na mão que segura a outra no hospital, no professor que insiste em acreditar, na mãe que divide o último pedaço de pão. Talvez Deus esteja na lágrima que cai e ainda assim rega alguma esperança.
Tudo como deve ser?
Não. Não está tudo certo.
Mas talvez esteja tudo humano demais.
Porque a vida é isso: mistura. Doença e cura. Pressa e pausa. Injustiça e gesto de bondade. Despedida e recomeço. A gente vai caminhando, mesmo mancando. Vai acreditando, mesmo com medo. Vai amando, mesmo sabendo que dói.
E no meio dessa bagunça bonita e sofrida que é existir, há uma teimosia chamada esperança. Pequena. Quase invisível. Mas viva.
Talvez seja isso que esteja como deve ser.
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Autor:
Brunna Keila (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de fevereiro de 2026 22:50
- Categoria: Carta
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Offline)
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