BRASIL DE QUEM?

Tabata Avelar

Brasil de quem?

Brasil de quem
é o asfalto quente rachando no meio-dia,
é o chinelo gasto correndo atrás do último ônibus,
é o menino que aprende cedo
que futuro é palavra que custa caro.

Brasil de quem
é o prédio espelhado refletindo o barraco torto,
é o elevador social que sobe em silêncio
enquanto o de serviço conhece todos os nomes,
todas as histórias que ninguém quer ouvir.

Brasil de quem
é o grito preso na garganta
engolido com café fraco e pão amanhecido,
é a mãe que faz milagre com o que não tem
e ainda chama de bênção o pouco que sobra.

Brasil de quem
é a farda que aperta o gatilho
e também o corpo que aprende a correr ao ouvir sirene,
é a esquina que vira fronteira invisível,
onde CEP decide destino.

Brasil de quem
é o voto comprado por promessa antiga,
é o palanque erguido sobre a poeira da rua sem saneamento,
é a foto sorridente no cartaz
e a fila dobrando o quarteirão do posto de saúde.

Brasil de quem
é o rio sufocado por ganância,
é a floresta ardendo para alimentar bolsos distantes,
é o céu cinza que não combina
com o verde que vendem nos comerciais.

Brasil de quem
é o diploma pendurado na parede úmida,
primeiro da família,
carregado como troféu e como peso,
tentando abrir portas que continuam trancadas.

Brasil de quem
é a mão preta revistada três vezes no mesmo dia,
é o olhar atravessado no shopping iluminado,
é a piada “inofensiva” que fere fundo
e depois se esconde atrás do riso.

Brasil de quem
é o samba que resiste na viela,
é o funk ecoando dos becos como manifesto,
é o grafite pintando esperança
onde antes só havia concreto e abandono.

Brasil de quem
é o campo vasto concentrado em poucos nomes,
é o trabalhador curvado sob o sol impiedoso,
é a marmita fria aberta na sombra escassa
enquanto a colheita enriquece outro endereço.

Brasil de quem
é a criança que sonha astronauta
olhando para um céu cortado por fios,
é o professor que insiste
mesmo quando o salário não insiste com ele.

Brasil de quem
é a periferia inventando moda,
linguagem, ritmo, tendência,
para depois ver sua criação
virar luxo em vitrine climatizada.

Brasil de quem
é o medo herdado,
é a coragem improvisada,
é a fé que não cabe em estatística
mas sustenta barracos e arranha-céus.

Brasil de quem
é a mulher que trabalha o dobro
e ainda luta para ser ouvida,
é o corpo que a sociedade julga
e a alma que continua de pé.

Brasil de quem
é o indígena defendendo a própria terra
como se fosse invasor,
é a história apagada dos livros
e escrita na pele de quem resiste.

Brasil de quem
é o migrante atravessando estradas
com a vida amarrada em sacos plásticos,
é a esperança que muda de cidade
mas carrega o mesmo sobrenome: luta.

Brasil de quem?
Do banqueiro blindado?
Do político intocável?
Do herdeiro que chama privilégio de mérito?

Ou do povo que acorda antes do sol
e dorme depois da novela,
que ri para não quebrar,
que canta para não calar?

Brasil de quem
é o que sangra e também o que dança,
é o que chora e também o que cria,
é o que apanha e também o que levanta.

Talvez seja
do pedreiro que constrói o luxo que nunca habita,
da diarista que limpa o brilho que não é seu,
do entregador que corta a cidade
costurando urgências alheias.

Talvez seja
de quem transforma dor em verso,
raiva em rima,
silêncio em pergunta.

Porque enquanto houver pergunta,
não há dono definitivo.
Enquanto ecoar “de quem?”,
há disputa, há consciência, há chama.

E no meio do caos e da beleza,
entre o grito e o tambor,
o Brasil vai sendo —
não propriedade,
mas processo.

Brasil de quem?
De quem insiste.
De quem resiste.
De quem não aceita
que o país seja privilégio.

Brasil de quem?
Talvez, um dia,
de todo mundo.

  • Autor: Tabata Avelar (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de fevereiro de 2026 22:11
  • Comentário do autor sobre o poema: Espero que com poema, possamos pensar e refletir sobre o “nosso” Brasil.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 5


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