Caderno

Amanda S. Moraes

Existe um caderno que respira quando é aberto.

Nele, rabiscos são pequenas escavações

onde memórias fingem ser apenas tinta.

 

Houve um tempo em que desenhar bastava, os personagens caminhavam sem peso,

cartas partiam como pássaros confiantes

e a linguagem não exigia arquitetura.

Hoje, cada palavra pede travessia,

como se escrever fosse atravessar gelo fino

ouvindo o próprio eco por baixo.

 

Há noites em que o papel não responde.

A mão insiste, mas algo recolhe as respostas

para um lugar onde o vocabulário não alcança.

Então o silêncio se alonga pela madrugada

e um brilho discreto atravessa o rosto

como chuva que não pretende ser percebida.

 

Ninguém de fora identifica o fenômeno.

Os objetos continuam nos lugares corretos,

o mundo mantém sua disciplina aparente,

mas existe uma pressão leve no centro das horas que altera a gravidade de tudo que é íntimo.

Ainda assim, a manhã retorna

com a delicadeza de quem não faz perguntas.

E o simples fato de respirar outra vez

parece uma concessão luminosa do universo, 

uma página em branco que não promete cura,

mas oferece espaço suficiente

para que a dor mude lentamente de forma

e aprenda, sem alarde,

a coexistir com a beleza de permanecer viva.

 

Alguns textos não servem para explicar.

Servem para manter acesa

uma pequena lâmpada invisível

que impede o interior de apagar por completo.

 

E talvez seja isso que ninguém percebe,

que a escrita não fecha feridas, 

apenas ensina a como tratá-las.

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 19 de fevereiro de 2026 23:30
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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