Existe um caderno que respira quando é aberto.
Nele, rabiscos são pequenas escavações
onde memórias fingem ser apenas tinta.
Houve um tempo em que desenhar bastava, os personagens caminhavam sem peso,
cartas partiam como pássaros confiantes
e a linguagem não exigia arquitetura.
Hoje, cada palavra pede travessia,
como se escrever fosse atravessar gelo fino
ouvindo o próprio eco por baixo.
Há noites em que o papel não responde.
A mão insiste, mas algo recolhe as respostas
para um lugar onde o vocabulário não alcança.
Então o silêncio se alonga pela madrugada
e um brilho discreto atravessa o rosto
como chuva que não pretende ser percebida.
Ninguém de fora identifica o fenômeno.
Os objetos continuam nos lugares corretos,
o mundo mantém sua disciplina aparente,
mas existe uma pressão leve no centro das horas que altera a gravidade de tudo que é íntimo.
Ainda assim, a manhã retorna
com a delicadeza de quem não faz perguntas.
E o simples fato de respirar outra vez
parece uma concessão luminosa do universo,
uma página em branco que não promete cura,
mas oferece espaço suficiente
para que a dor mude lentamente de forma
e aprenda, sem alarde,
a coexistir com a beleza de permanecer viva.
Alguns textos não servem para explicar.
Servem para manter acesa
uma pequena lâmpada invisível
que impede o interior de apagar por completo.
E talvez seja isso que ninguém percebe,
que a escrita não fecha feridas,
apenas ensina a como tratá-las.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 19 de fevereiro de 2026 23:30
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1

Offline)
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