Inferno

adrya


Deus? Espírito? Universo? Força?
Alguém está me ouvindo?
Eu posso me ouvir?
Você sabe…
o maior inferno de todos
é a minha própria mente.
Eu sempre tive problemas com ela.
Tire-a de mim.
Eu preciso fugir disso, agora.
Por que eu não consigo viver a realidade?
A fantasia da minha cabeça
é muito mais interessante…
Mas é perigosa.
E me sabota.
Eu estou enlouquecendo.
Fico pensando o tempo todo
sobre aquilo
que não existiu
ou que nunca vai acontecer.
Eu sinto meu cérebro discutir com ele mesmo
tentando voltar para o mundo real.
Eu sou tão sonhadora…
Mas eu racionalizo tudo.
Eu sou uma incógnita.
Eu vivo por fora.
Eu observo tudo —
e a mim mesma.
Que loucura.
Autoanálise.
Mas eu não posso morrer assim…
Insatisfeita.
Eu quero ser livre.
Ou ao menos entender o que eu sou
e me livrar dessa angústia.
Por que eu nasci tão pensativa?
Apesar de tudo…
eu quero ter forças para lidar
e seguir em frente.
Eu vejo cura.
Eu vejo amor.


Moro numa casa de espelhos
onde minha mente projeta versões melhores da realidade.
Lá dentro, tudo é editável;
lá fora, tudo é incerto.
Passei anos discutindo comigo mesmo,
confundindo abrigo com prisão.
Hoje entendi:
não preciso destruir a casa,
apenas abrir janelas.
Imaginar pode ser ferramenta, não fuga.
E viver, ainda que imperfeito,
é sempre mais amplo do que qualquer reflexo.


Minha mente e eu temos uma relação tóxica.
Ela me promete mundos e fundos na fantasia
e depois me larga sozinha
na fila do pão da realidade,
com moedas contadas
e a dignidade amassada no bolso.
***
Ela é exagerada.
Dramática.
Roteirista premiada de tragédias que nunca estreiam.
***
Sussurra futuros brilhantes
com trilha sonora épica,
e quando acordo
estou apenas escolhendo entre o pão francês
ou a coragem de mais um dia comum.
***
Já tentei terapia de casal
— eu de um lado,
ela do outro,
e no meio uma xícara de café esfriando.
***
“Você cria expectativas demais”, eu digo.
“Você vive de menos”, ela responde.
***
E assim seguimos,
nessa dança entre o quase e o agora,
ela desenhando castelos com torres de talvez,
eu tentando pagar boletos com a moeda do presente.
***
Até que ontem
(depois de um colapso elegante no banho)
decidi pedir o divórcio das preocupações
e casar com o momento.
***
Sem festa.
Sem vestido branco.
Só eu, o espelho
e a consciência assinando os papéis invisíveis.
***
Prometi fidelidade ao que existe.
À luz que entra pela janela
sem prometer eternidade.
Ao riso que acontece
mesmo quando a vida não está pronta.
***
Minha mente ainda tenta negociar:
“E se tudo der errado?”
Eu sorrio, passo manteiga no pão
e respondo:
“Então a gente aprende a receita.”
***
Porque talvez viver
não seja eliminar o drama interno,
mas reduzir o volume
e dançar mesmo assim.
***
Minha mente e eu
agora estamos em guarda compartilhada.
Ela pode sonhar à tarde,
mas à noite voltamos para casa.
***
E se amanhã ela me prometer o universo,
eu agradeço —
mas levo apenas o necessário
para atravessar o dia.
***
No fim, descobri:
liberdade não é silenciar os pensamentos,
é não deixar que eles escolham o cardápio da minha paz.
***
E aqui estou,
recém-casada com o instante,
aprendendo que o amor mais estável
é aquele que cabe
na palma da mão
e dura
exatamente
agora.


E quando eu escorrego
e volto a morar no “e se…”
eu não me xingo.
Eu me pego pela mão,
como quem atravessa a rua com uma criança assustada.
Respiro, nomeio o que é simples:
o chão, o corpo, o cheiro do café.
Minha mente reclama, faz cena, bate portas —
eu deixo.
Mas não sigo atrás.
Eu fico.
Porque ficar é o meu jeito novo de fé:
não na certeza,
mas na coragem de voltar
mais uma vez
pro agora.


Inferno não é distante, é íntimo
É a mente acendendo mil refletores num palco vazio,
Até que a plateia se confunda
Comigo mesmo.
---
Inferno é cotidiano:
O pão que esfria,
O café que reclama do silêncio,
A janela que insiste em mostrar
Um mundo sem edição.
---
Mas descobri
Que o inferno também tem portas.
E quando abro uma,
O fogo vira claridade,
O barulho vira música,
E eu percebo:
Não preciso fugir dele,
Apenas aprender a morar
Com as brasas acesas
Sem me queimar e foguear os outros.


E eu vou te contar uma coisa, mente:
eu não sou teu cenário.
Não sou teu teatro alugado por hora,
nem teu laboratório de hipóteses
onde eu viro rato correndo em círculos
pra provar uma tese que nunca termina.
Eu sei que você tenta me proteger.
Você diz: “antecipa, calcula, prevê, ensaia”.
Você chama isso de prudência,
mas às vezes é só pânico com nome elegante.
E quando eu te obedeço,
eu passo o dia inteiro me preparando
pra um desastre que não acontece —
e no fim estou exausta
como se tivesse sobrevivido a ele.
Então eu vou fazer diferente.
Quando você ligar os refletores
num palco vazio de madrugada,
eu vou acender só uma luz pequena
na cozinha do presente.
Vou lavar um copo devagar,
ouvir a água cair sem interpretação,
sentir minha mão existindo
sem precisar justificar por que existe.
Você vai tentar me puxar:
“E se amanhã doer?”
“E se você for embora e perder tudo?”
“E se você estragar de novo?”
E eu vou te responder com coisas mínimas,
como quem ensina um animal assustado
que a casa não vai desabar porque o vento gritou.
Eu vou te dizer:
hoje eu comi.
hoje eu respirei.
hoje eu tive um minuto de silêncio
que não era castigo.
Hoje eu olhei pra alguém (nem que fosse de longe)
e por um segundo eu não quis me esconder
dentro de mim.
Eu vou aceitar que nem todo pensamento é recado.
Que ideia é nuvem,
e nuvem não é mandamento.
Que sentimento é maré,
e maré não assina contrato.
Que o “e se” é só uma linguagem
que você aprendeu pra tentar me salvar,
mas que não precisa mandar em mim
como se fosse rei.
Porque eu também aprendi uma língua nova:
a do retorno.
A do recomeço sem espetáculo.
A do perdão que não passa pano,
mas passa a mão na cabeça
do que em mim está em febre
e pede colo.
E quando eu falhar — porque eu vou falhar —
eu não vou transformar isso em profecia.
Eu vou chamar de humano.
Eu vou chamar pelo meu nome
como quem chama alguém de volta pra casa
num dia de chuva:
sem bronca,
sem pressa,
com toalha e com chá.
Talvez seja isso, afinal, a tal liberdade:
não expulsar você, mente,
nem te obedecer como se eu fosse tua serva —
mas te colocar num lugar menos alto.
Uma cadeira ao lado, não um trono.
Uma companheira difícil, não uma deusa.
E se o inferno é íntimo,
então a cura também pode ser.
Uma porta aberta.
Uma janela que não promete nada,
só deixa o ar entrar.
E eu, aqui dentro, aprendendo aos poucos
que viver não é vencer o pensamento —
é escolher, no meio dele,
o que merece virar caminho.

  • Autores: A.G (Pseudónimo, Sezar Kosta, Bulaxa Kebrada, Jairo Cícero, Lunix.L
  • Visível: Todos os versos
  • Finalizado: 23 de fevereiro de 2026 15:42
  • Limite: 6 estrofes
  • Convidados: Público (qualquer usuário pode participar)
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 10


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