Interface

Amanda S. Moraes

Não fomos apenas gerados,

estamos sendo ativados a todo momento.

Há códigos dormindo em nossas células

que despertam ao toque do afeto

ou ao corte do medo.

O DNA não é sentença,

é partitura esperando ambiente.

Somos herança,

mas também atualização.

O cérebro, esse arquiteto inquieto,

derruba paredes antigas

e redesenha mapas internos

cada vez que choramos, meditamos, corremos,

cada vez que alguém nos olha

como se fôssemos reais.

Nada em nós é estático.

Nem mesmo o “eu”.

Chamaram de intuição o que o corpo já sabia.

Antes da palavra, há pulso.

Antes do pensamento, há tensão muscular.

O ventre percebe o que a lógica demora a admitir.

Somos sistema nervoso em diálogo

com histórias que não começaram em nós.

Traumas atravessam gerações

como rios subterrâneos.

Culturas carregam cicatrizes invisíveis.

Civilizações repetem medos antigos

com novas tecnologias.

E no meio disso a pergunta muda:

Se máquinas já calculam melhor,

escrevem melhor, analisam melhor,

o que nos resta?

 

Resta sentir.

 

Resta essa combustão silenciosa

que nenhuma linha de codificação experimenta.

Resta amar mesmo quando dói.

Resta escolher ética, fazer o bem,

quando o lucro grita.

 

Talvez não sejamos apenas matéria.

Mas também não sejamos só luz.

 

Somos a fenda

onde o universo aprende

a ter consciência de si.

 

Somos interface.

 

Entre química e significado.

Entre instinto e compaixão.

Entre sobrevivência e transcendência.

 

E talvez a maior descoberta

não esteja nos laboratórios,

mas na coragem de integrar

todas as camadas

sem negar nenhuma.

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de fevereiro de 2026 00:46
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4


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