Manual Para Segurar o Mundo sem Rasgar

Luana Santahelena

Amar é carregar sacola de mercado

rezando para o fundo de plástico

não estourar na calçada da vida.

 

Eu sei —

não parece definição filosófica,

mas Sócrates nunca precisou equilibrar

duas garrafas de leite

e uma dignidade frágil

a caminho de casa.

 

Há sempre algo pesado demais

para um material tão fino:

expectativas,

medos em promoção,

o pacote econômico das inseguranças.

 

E lá vou eu,

braços marcados pelo peso do afeto,

negociando com o destino:

“Só até a esquina, universo,

prometo não reclamar da existência

se nada rasgar.”

 

Às vezes rasga.

 

E as laranjas rolam pela rua

como teorias mal formuladas

sobre o sentido da vida.

Eu corro atrás delas

com a elegância possível

a quem tenta manter a compostura

enquanto o caos ri.

 

Amar é ouvir aquele áudio eterno de reclamação

e pensar:

“É doido, mas é o meu doido.”

 

E sorrir.

Porque no fundo

também envio meus áudios dramáticos

para alguém que me escuta

como quem segura a sacola por baixo,

reforçando o fundo com as próprias mãos.

 

Somos dois remendos ambulantes.

Dois improvisos que deram certo

por insistência.

 

É o conserto improvisado

que dura a vida toda —

fita adesiva invisível

colando rachaduras existenciais,

um “vai dar certo”

dito com a convicção

de quem não tem certeza nenhuma.

 

Descobri que liberdade

não é andar sozinha pela feira do mundo,

mas escolher

quem segura comigo

as alças frágeis do cotidiano.

 

Se a sacola pesa,

dividimos o peso.

Se estoura,

catamos juntos os espalhos.

 

No fim,

amar talvez seja isso:

aceitar que o plástico é fino,

que a calçada é longa,

que a vida não vende garantia estendida —

 

e ainda assim

seguir caminhando,

com cuidado,

com riso,

com esse medo leve

que me faz rezar baixinho

e apertar melhor as alças.

  • Autor: Bulaxa Kebrada (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 11 de fevereiro de 2026 12:36
  • Comentário do autor sobre o poema: Amar é sustentar juntos aquilo que a vida insiste em sobrecarregar, mesmo sabendo que somos frágeis. É dividir o peso das expectativas, rir dos pequenos desastres e continuar recolhendo o que cai pelo caminho sem transformar tropeços em desistência. É aceitar que não existe garantia contra imprevistos, mas escolher permanecer ao lado de quem ajuda a segurar tudo quando ameaça romper. No fim, amor é parceria imperfeita: dois adultos aprendendo a reforçar um ao outro enquanto atravessam a mesma calçada.
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 5
  • Usuários favoritos deste poema: Luana Santahelena, Sezar Kosta
Comentários +

Comentários1

  • Isabella Vitória

    Céus... teus versos... que incrível tudo isso.



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