Amar é carregar sacola de mercado
rezando para o fundo de plástico
não estourar na calçada da vida.
Eu sei —
não parece definição filosófica,
mas Sócrates nunca precisou equilibrar
duas garrafas de leite
e uma dignidade frágil
a caminho de casa.
Há sempre algo pesado demais
para um material tão fino:
expectativas,
medos em promoção,
o pacote econômico das inseguranças.
E lá vou eu,
braços marcados pelo peso do afeto,
negociando com o destino:
“Só até a esquina, universo,
prometo não reclamar da existência
se nada rasgar.”
Às vezes rasga.
E as laranjas rolam pela rua
como teorias mal formuladas
sobre o sentido da vida.
Eu corro atrás delas
com a elegância possível
a quem tenta manter a compostura
enquanto o caos ri.
Amar é ouvir aquele áudio eterno de reclamação
e pensar:
“É doido, mas é o meu doido.”
E sorrir.
Porque no fundo
também envio meus áudios dramáticos
para alguém que me escuta
como quem segura a sacola por baixo,
reforçando o fundo com as próprias mãos.
Somos dois remendos ambulantes.
Dois improvisos que deram certo
por insistência.
É o conserto improvisado
que dura a vida toda —
fita adesiva invisível
colando rachaduras existenciais,
um “vai dar certo”
dito com a convicção
de quem não tem certeza nenhuma.
Descobri que liberdade
não é andar sozinha pela feira do mundo,
mas escolher
quem segura comigo
as alças frágeis do cotidiano.
Se a sacola pesa,
dividimos o peso.
Se estoura,
catamos juntos os espalhos.
No fim,
amar talvez seja isso:
aceitar que o plástico é fino,
que a calçada é longa,
que a vida não vende garantia estendida —
e ainda assim
seguir caminhando,
com cuidado,
com riso,
com esse medo leve
que me faz rezar baixinho
e apertar melhor as alças.
-
Autor:
Bulaxa Kebrada (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 11 de fevereiro de 2026 12:36
- Comentário do autor sobre o poema: Amar é sustentar juntos aquilo que a vida insiste em sobrecarregar, mesmo sabendo que somos frágeis. É dividir o peso das expectativas, rir dos pequenos desastres e continuar recolhendo o que cai pelo caminho sem transformar tropeços em desistência. É aceitar que não existe garantia contra imprevistos, mas escolher permanecer ao lado de quem ajuda a segurar tudo quando ameaça romper. No fim, amor é parceria imperfeita: dois adultos aprendendo a reforçar um ao outro enquanto atravessam a mesma calçada.
- Categoria: Amor
- Visualizações: 5
- Usuários favoritos deste poema: Luana Santahelena, Sezar Kosta

Offline)
Comentários1
Céus... teus versos... que incrível tudo isso.
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.