Nós Lábios e nos Dedos

Ricardo Maria Louro



Trago suspensa nos lábios

a palavra poesia,

trago, na ponta dos dedos,

todos os versos por escrever,

nos olhos, trago estrofes,

métricas, rimas e tercetos ...

 

Tantas quadras d'ilusão

que na forma nunca rimam

mas que enquadram um sentir

vasto e profundo,

cheio de sucalcos no caminho,

à beira de um abismo!

 

Existo p'ra sofrer em minha

própria dor,

destruo-me e renasço

a cada instante, para em seguida,

voltar a morrer e depois a renascer!

 

Sou assim em cada verso!

Porque trago suspensa, nos lábios,

a palavra poesia e na ponta dos dedos

todos os versos por escrever ...

Comentários +

Comentários1

  • José Francisco de Morais

    O poema exprime uma forte identificação do eu-lírico com a própria poesia, apresentada não apenas como forma de expressão, mas como essência da sua existência. A “palavra poesia” suspensa nos lábios simboliza uma necessidade constante de criação, enquanto os “versos por escrever” sugerem um potencial infinito e inquieto.

    Há também uma dimensão emocional intensa: a poesia nasce da dor, da ilusão e de um percurso difícil (“sulcos no caminho, à beira de um abismo”). O sujeito poético vive num ciclo de destruição e renascimento, mostrando a criação artística como processo contínuo de transformação interior.

    No conjunto, o poema transmite a ideia de que ser poeta é viver entre sensibilidade, sofrimento e permanente recriação — existir através dos versos, mesmo daqueles que ainda não foram escritos.

    • Ricardo Maria Louro

      Obrigado por esta análise tão inteira e profunda. Tão verdadeira ...



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