sso ainda não é poesia.

Marujo



Palavras passam pela minha cabeça como peixes descendo uma longa cachoeira cristalina. Eu as coloco, guardo, abraço e tento, por mais impossível que seja, organizá-las em uma pequena caixa, com veludo fofo, macio, como o leito final de alguém que, apesar de tudo, é cercado de pessoas que conhece e já tocou. E eu me ajoelharia, penitente, diante de um grande amor; de um ser de carne, osso e vontade, assim como eu, e abriria a caixa, deixando escapar todos os ácaros que me roubaram tantas noites de sono, tantas palavras que ultrapassam qualquer boa vontade que suas belezas jamais poderiam comprar. Como um pavão, a merda de um pavão exibido, que se expressa pateticamente por ser a única coisa que jamais soube fazer. Um pavão, não, uma borboleta, que correu tanto de um canto do quarto para o outro que agora, pelo menos moralmente, não se torna mais do que uma barata. E baratas devem ser esmagadas, da mesma forma que palavras que nascem à meia-noite devem ser esmagadas, para que não durem até a manhã. Imagine só elas virando poesia. Imagine só elas virando serenata. Não, não, não. O que você me responderia? Diria que sente o mesmo? Não sente. Diria que está grata? Pouco me importa. Diria que, apesar de ler meus lábios e saber perfeitamente a minha língua, não entende? Não entendo eu. Por que a cachoeira cristalina virou um esgoto? Por que os peixes se tornaram ratos? Penso em fogo e visualizo napalm, penso em água e só vejo chorume, penso na mínima, MÍNIMA, desilusão e não consigo sequer mais tragá-la. Parece que criar imagens na cabeça das pessoas não me serviu de nada. Melhor seria se as criasse em suas peles e em suas casas. E hoje não há palavra que eu não deteste, não há metáfora que não me enoje, não há uma que eu não tenha jogado fora do meu coração em fúria. Fúria por uma traição anônima, sem promessas, sem nada. Não existe amor no presente, e no passado há apenas vultos vagos. Sorria quando ver um sorriso, sorria como um primata assustado e reze para que seus dentes amarelados pelo menos façam alguém rir. E torça para que suas palavras e o showzinho de mágica a prendam o suficiente para devorá-la. Repita até encontrar alguém que diga sim à caixa de Pandora.

  • Autor: Marujo (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 10 de fevereiro de 2026 03:18
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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