Amar é lembrar
de colocar água no feijão
e no outro também.
***
É dividir o cobertor
como quem negocia fronteiras invisíveis
às três da manhã,
quando um puxa e o outro finge dormir
pra não ter que pedir de volta.
***
Cuidar é perguntar
“já comeu?”
mesmo sabendo que a resposta
vai ser um áudio de cinco minutos
explicando por que não.
***
Ser cuidado é aceitar
que alguém te traga um conselho torto,
um chá que não cura nada,
mas vem com um beijo
e isso resolve quase tudo.
***
O amor real não é propaganda de margarina:
é mais parecido com Wi-Fi instável.
Cai, volta, dá raiva,
mas quando funciona
ninguém quer trocar.
***
Amar é ser o lembrete do remédio esquecido,
o ombro que nunca falta,
o riso que atravessa a discussão
quando alguém diz “registro”
em vez de “registro”
e, sem perceber,
a briga já não sabe mais por que existe.
***
Cuidar é saber
quando apertar
e quando soltar,
como quem segura sacola de mercado
antes do fundo rasgar.
***
Ser cuidado é poder desmontar no sofá
sem medo de parecer bagunça,
porque alguém olha e pensa:
“dou conta”.
***
No fim,
amor é isso:
duas pessoas imperfeitas
tentando não quebrar o outro
enquanto aprendem, aos tropeços,
a consertar juntos
o que a vida desarruma.
O amor nasce e sempre se revela,
Cuidar é a sua acção mais bela.
Paixão é um fogo que incendeia,
Amor é o que a alma docemente semeia.
Amar é ouvir do outro o silêncio profundo,
É saber do ser que inunda o mundo.
Com ternura o coração se alcança,
Num toque suave de esperança.
Amar é acordar antes
não para fazer discurso,
mas para passar o café
e deixar a xícara esperando
como quem diz
“eu pensei em você antes do mundo”.
-+-
É dobrar a roupa ainda morna
e guardar junto
as manias que a gente já decorou:
a meia que sempre some,
o pijama favorito que já viu dias melhores,
o silêncio da manhã
que precisa ser respeitado.
-+-
O amor mora nas pequenas manutenções.
Na lista de mercado colada na geladeira,
onde “arroz” e “feijão” dividem espaço
com “não esquecer de conversar”.
-+-
Às vezes a gente esquece.
-+-
Tem dias em que um vira tempestade
e o outro segura as janelas.
Não para impedir o vento,
mas para que nada quebre.
Depois a função troca —
porque ninguém aguenta ser telhado o tempo todo.
-+-
Cuidar é perguntar se chegou bem.
É separar o remédio antes que a dor aumente.
É perceber, pelo jeito de fechar a porta,
que o dia foi pesado
e oferecer colo sem relatório.
-+-
Ser cuidado é poder falhar
sem medo de despejo.
É deixar a louça acumular um pouco
e ouvir:
“a gente resolve depois”.
-+-
Amor não é casa de revista.
Tem infiltração antiga,
tem parede que precisa de retoque,
tem discussão por causa da toalha molhada na cama.
Mas tem também
duas pessoas aprendendo
a dividir o mesmo teto
sem diminuir o próprio tamanho.
-+-
No fim,
amar é isso:
revezar o avental invisível,
segurar a escada enquanto o outro troca a lâmpada,
e confiar
que, mesmo quando a energia cai,
há mãos conhecidas no escuro.
Às vezes amar é fazer silêncio direito:
não ganhar a discussão,
não preencher o vazio,
só ficar ali
segurando a pausa
como quem segura a porta do elevador
até o outro conseguir entrar.
É uma troca de cuidar e ser cuidado no Amor.
Onde nada pesa e tudo é leve quando se é recíproco
e não há espaço para brigas apenas união,
um completando o outro na mais pura sintonia,
o abraço apertado traz cura para os momentos difíceis
onde o "Eu te amo" não são palavras vazias jogadas ao ar.
É o encontro de duas almas para o mesmo ideal.
Às vezes amar é pedir desculpa cedo,
não pra encerrar o assunto,
mas pra salvar o que importa.
É largar a frase afiada na ponta da língua,
trocar razão por paz,
e voltar pro mesmo lado da cama
como quem volta pra casa.
- Autores: Bulaxa Kebrada (Pseudónimo, Arthur Santos, Sezar Kosta, Jairo Cícero, Rosangela Rodrigues de Oliveira
- Visível: Todos os versos
- Finalizado: 24 de fevereiro de 2026 11:30
- Limite: 10 estrofes
- Convidados: Público (qualquer usuário pode participar)
- Comentário do autor sobre o poema: “Um amigo me chamou pra cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso. E fui.” (Clarice Lispector) Viver a dois é um revezamento de quem vai ser o "adulto da vez". Cuidar é saber que o outro é um desastre natural com pernas, mas você é o seguro total contra incêndios. É decorar o horário dos remédios de alguém que esquece até onde guardou os próprios óculos. Ser cuidado é ter licença poética para surtar, sabendo que haverá um detector de bobeiras pronto para te resgatar. No fim, a gente se cuida para garantir que nenhum dos dois acabe falando sozinho com as paredes. É amor, mas com assistência técnica.
- Categoria: Não classificado
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