Às vezes penso que entender a vida humana
é tentar decifrar um espelho rachado,
cada pessoa devolve um reflexo diferente
e jura que aquele fragmento é o todo.
Há quem toque o mundo com luvas de gelo,
há quem atravesse a rua descalça,
e ambos dizem estar certos,
mas certos para quê, para quem, a que preço?
Vivemos num mercado de respostas rápidas,
algumas soluções nascem do lucro,
outras do medo de perder poder,
poucas brotam do cuidado real com a ferida.
No teatro da dualidade,
bem e mal vestem figurinos trocáveis,
e a ética, às vezes, vira moeda miúda
no bolso de quem fala alto.
Eu nasci com a pele fina demais para esse clima,
mas com ossos de onça sob a carne sensível.
Minha bússola sempre foi a intuição,
um farol interno que não aceita suborno.
Tentei ser íntegra até nos detalhes invisíveis,
e quando vieram os tropeços, as traições,
engoli o grito, arquivei as provas no silêncio,
como quem guarda cartas nunca enviadas.
Doeu.
Doeu não entender como alguém usa
as mãos que apertou em confiança
para empurrar pelas costas.
Doeu perceber que a manipulação
pode ter sorriso e discurso bonito.
E doeu mais ainda calar,
achando que maturidade era não reagir.
Mas maturidade também é limite.
É aprender que bondade não é passividade.
Que sensibilidade não é fraqueza,
é radar e radar existe para detectar risco.
Se me ferem e esperam quietude,
confundem minha paz com ausência de força;
esquecem que até o mar sereno
carrega correnteza por baixo.
Os sonhos às vezes reabrem cenas antigas,
como se o inconsciente pedisse revisão.
E talvez peça mesmo:
não para reviver a dor,
mas para reescrever o significado.
Nunca é fácil, e ao despertar falta um pedaço.
O passado não muda,
mas o lugar que ele ocupa em mim
pode encolher.
Eu sei que disciplina é ponte,
posso moldar minha versão futura
como quem treina um músculo invisível.
O coração ainda aperta,
mas aperto também é sinal de vida,
órgãos mortos não doem.
Não quero me lacrar numa concha,
porque conchas protegem
e também isolam do horizonte.
Prefiro ser casa com portas,
não muralha sem janelas.
Acreditar na humanidade é risco calculado,
mas desistir dela é desistir de mim.
Se estou viva, que seja com propósito.
Que minha utilidade não seja só sobreviver,
mas clarear alguns caminhos,
defender quem não tem voz,
plantar consciência onde plantam medo.
Que eu transforme a dor acumulada
em discernimento
e a raiva, em combustível ético.
Talvez entender a vida humana
não seja escolher um lado fixo,
mas aprender a caminhar lúcida
entre sombra e luz,
sem vender a própria alma
nem endurecer o próprio coração.
E se eu continuar sentindo demais,
que seja.
Prefiro a intensidade que dói
à frieza que nada toca.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 9 de fevereiro de 2026 00:34
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2
- Usuários favoritos deste poema: Apegaua

Offline)
Comentários1
Eu gostei, por também já ter sido assim.
Escrevia de mais.
Falava menos.
Corria tanto.
Que um dia cansado me perguntei.
E para onde tudo isso ira me levar.
Se não para um vazio.
Pois afinal tudo não passa de uma estada.
Ficar bem.
AP
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