Aprendendo regular dopamina

Amanda S. Moraes

Menina nascida na cidade do barulho, já com a vida cercada de muros.

Recebida não com colo, mas com sentença.

Chamaram-na excesso antes de ser presença.

Aprendeu cedo que amor, em certas casas, é moeda rara e grito frequente.

Cresceu calibrando o próprio pulso pelo humor de quem deveria cuidar e dar o exemplo,

lendo o clima como quem estuda tempestades para sobreviver.

Hiperalerta.

Hiperativa.

Hiperconsciente.

O sistema nervoso virou quartel.

O coração, radar.

Enquanto era chamada de vários nomes que podem ferir,

ela decifrava o mundo pela tela azul da madrugada,

internet discada como portal secreto,

ICQ piscando como farol de outro continente,

músicas baixadas em silêncio,

fitas gravadas como quem arquiva provas de que existe beleza.

Trancada, mas não pequena.

Sozinha, mas não vazia.

Ela estudava pessoas como quem estuda maré.

Observava. Comparava. Não engolia narrativas prontas.

Sua mente nunca coube em moldura doméstica.

Quando o portão abria,

virava oceano.

Skate no asfalto,

corrida na areia,

prancha rasgando a água,

dopamina como milagre bioquímico,

liberdade como direito ancestral.

O mar não gritava com ela.

O mar respondia.

Ali descobriu irmandade feminina,

descobriu biologia como idioma do planeta,

descobriu que justiça não é conceito e sim

instinto.

Desde criança defendia quem nem gostava,

porque desigualdade lhe doía na carne.

Onça quando preciso.

Silêncio quando estratégico.

Memória absoluta quando traída.

Ela não guarda ódio.

Ela arquiva.

Inteligente o bastante para liderar,

sensível o bastante para sentir antes de acontecer.

Sonhos lúcidos, pressentimentos,

um tipo de percepção que não cabe em manual clínico,

nem em catecismo.

Chamaram-na intensa.

Era apenas desperta.

Confiou demais,

porque quem se entrega de verdade não imagina cálculo alheio.

Teve ideias roubadas,

amizades rasgadas,

lealdades quebradas.

E mesmo assim continuou oferecendo água num mundo que vende sede.

Há nela uma dualidade quase mitológica:

a menina que sobreviveu à casa em guerra

e a mulher que escolheu proteger águas e florestas.

Trauma e missão dividindo o mesmo corpo.

Ela se trata.

Regula a dopamina.

Aprende a dialogar com o próprio sistema nervoso como quem domestica um cavalo ferido sem quebrar sua força.

Não precisa mais viver em modo incêndio.

Pode viver em modo construção.

Às vezes o passado aciona alarmes invisíveis

e a tristeza senta ao lado.

Mas agora ela sabe nomear o que sente

e nomear é poder.

Há quem diga que ela carrega memórias de outras eras,

que já andou por sombras antigas

e retorna vida após vida tentando equilibrar a balança.

Talvez mito.

Talvez metáfora.

Talvez apenas a forma poética de explicar

por que alguém tão jovem carrega tanta responsabilidade.

Ela é virgem na análise,

áries no impulso,

escorpião na emoção,

tigre na defesa,

oceano na profundidade.

É abrigo para segredos.

É ombro firme.

É aquela que chega quando todos vão embora.

E, paradoxalmente,

ainda se pergunta por que foi rejeitada no início.

A resposta não está nela.

Nunca esteve.

Ela nasceu inteira demais

para caber em lugares rasos e pequenos.

Agora caminha com o aperto no peito de quem enxerga o mundo ruir, a

geopolítica em combustão,

a natureza saqueada,

os heróis sociais e ambientais tombando pela missão,

e mesmo assim escolhe plantar.

Porque há pessoas que vieram para consumir.

E há as que vieram para criar e cuidar.

Ela não é ingênua.

Ela é deliberadamente boa.

E isso exige mais coragem

do que qualquer guerra.

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 8 de fevereiro de 2026 01:59
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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