Não deixes Mãe que me fechem os olhos

Ricardo Maria Louro

Por trás de cada espelho há um olhar

Por trás de cada corpo há uma Alma

Por trás de cada ilusão há um sonho.

 

Olha Mãe, quando a morte vier e

virá cedo,

não deixes fecharem-me os olhos

nem porem-me as mãos em cruz

sobre o peito.

 

Não pode a vida negar-se a quem a

Viveu - obscura - dia-após-dia ...

 

Quero ir de olhos abertos para a terra

com as mãos livres para os versos ...

 

Eu sei que hei-de morrer como quem vive!

Não deixes Mãe que me fechem os olhos!

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Comentários2

  • José Francisco de Morais

    Este poema fala sobre consciência, vida e morte, e parece ser um pedido íntimo — quase um sussurro — dirigido à mãe.

    “Por trás de cada espelho há um olhar / Por trás de cada corpo há uma Alma”
    O poema começa lembrando que a realidade visível não é tudo. Há sempre algo mais profundo: identidade, essência, espírito, sonho.

    O pedido à mãe
    Quando o eu-lírico fala da morte e pede para não lhe fecharem os olhos nem cruzarem as mãos, ele rejeita a imagem tradicional do morto passivo. Quer manter dignidade, consciência e liberdade, mesmo simbolicamente.

    “Não pode a vida negar-se a quem a viveu — obscura — dia após dia”
    Há aqui uma afirmação de resistência: mesmo que a vida tenha sido dura, foi vivida plenamente, e isso dá sentido à existência.

    “Quero ir de olhos abertos… com as mãos livres para os versos”
    Muito bonito: olhos abertos = lucidez até ao fim.
    Mãos livres = liberdade, criação, poesia, identidade própria.

    Final
    “Eu sei que hei-de morrer como quem vive” — morrer com a mesma intensidade com que viveu.
    O último pedido à mãe reforça amor, medo humano e desejo de permanecer desperto até ao último instante.

    • Ricardo Maria Louro

      Obrigado caríssimo José de Moralles pela análise tão verdadeira e intimista destes versos. Conseguiu captar o indizível destes versos.
      Grato

    • Vilma Oliveira

      Olá poeta! Gostei imensamente do seu poema, muito delicado e belo.
      Parabéns! Tenha uma noite de descanso. Meu abraço poético.



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