ADULTÉRIO

Charles Araújo

ADULTÉRIO 

 

O Obsceno da Manhã

 

A pornografia de um adultério não está

na sacanagem suja de dois corpos se esfregando.

Ela não mora no quarto abafado,

nem na cama ainda quente de pressa.

 

Isso é só carne em seu estado lascivo,

um espetáculo breve,

quase vulgar de tão humano.

 

O verdadeiro indecente começa quando a noite acaba.

 

Ela nasce na luz da manhã raiada,

uma luz que entra pelas cortinas mal lavadas

e cai sobre a sala de estar

como um julgamento silencioso.

É ali que o obsceno se instala,

vestido de normalidade.

 

Há um cinzeiro cheio na mesa,

cheiro velho de café requentado,

uma garrafa esquecida talvez vinho barato,

Talvez absinto e dois copos que fingem não ter história.

 

A cidade ainda está silenciosa lá fora,

enquanto dentro

tudo já apodreceu com elegância.

 

O sexo do adultério sempre será um rabisco nervoso,um traço rápido, quase obscuro,

como aqueles desenhos feitos às pressas

no fundo de um cabaré qualquer.

 

Mas a pornografia…

 

essa exige cenário.

 

Ela mora no gesto calmo.

Na camisa passada com cuidado.

No rosto lavado sem pressa diante do espelho.

No sorriso neutro, educado,

que atravessa a sala

como se nada tivesse acontecido.

 

Mora no café passado com a mesma mão

que desabotoou,

que empurrou,

que mentiu.

 

Mora no pão cortado em silêncio.

Na manteiga espalhada com método,

como se a moral também pudesse ser alisada

até desaparecer nas migalhas.

 

É o depois que sempre fere.

A compostura.

O teatro doméstico.

A decência ensaiada às oito da manhã.

 

Não há gemido ali.

Não há suor.

Não há descontrole.

E é justamente isso

que torna tudo mais sujo.

 

Como nas noites boêmias das casas de tolerância,

onde o verdadeiro escândalo

não estava no corpo nu da dançarina,

mas nos cavalheiros bem-vestidos que aplaudiam,

apalpavam

e depois voltavam para casa

para beijar a esposa

com a boca ainda manchada de vinho.

 

A pornografia do adultério não grita.

Ela conversa baixo.

Senta-se à mesa.

Cruza as pernas

.

 

Diz “eu te amo”

e pede mais café.

O obsceno vem depois.

Sempre vem depois.

 

 

  • Autor: C.araujo (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 7 de fevereiro de 2026 06:24
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.