AMOR RATIONALIS

Osvaldo Subiso

AMOR RATIONALIS

Aquela miúda sisuda que tempestivamente caminhava no pátio da escola imbuída de livros de filosofia era, sem sombra de dúvida, de uma beleza inenarrável. Mas a beleza não se atinha ,simplesmente, à sua corpulência de extrema efeminação. Era a sua fascinante idiossincrasia avivada por livros, conhecimento e insatisfação de tudo que existe , um bocado de timidez, ousadez, retórica aguda e robustez intelectiva que me fascinara.

Na verdade, via-me nela o encontro comigo mesmo. Via abstração transfigurada em mulher. Como se do campo das ideias, do inteligível, do metafísico brotasse algo sensível, físico, tangível.

Uma acessa necessidade de me pôr atrelado à ela urgiu-se impetuosamente. Tal como a “Verdade” , o meu estado de espirito vagueou pela ignorância, pela dúvida, pela opinião e por final pela aceitação daquela exótica mulher de múltiplas virtudes.

Tornou -se verdade o nascimento de uma profunda paixão dentro de mim, algo que nunca sentira desde que me faço como gente. Não era algo comum, era ardente, envolvente, desconcertante em certos momentos, era um sair de uma caverna que me tinha como inquilino, era um conhecer das causas primeiras e ultimas de todas as coisas.

Um amor rationalis emergiu dentro de mim. Diferente do clássico, esse não se baseava nos ditames do coração, nem daquilo que os sentidos conseguem captar. Baseava-se naquilo que não é acidental, na essência do espírito, na razão.

E não me foi necessário ser possuidor da mais latente lábia, pois, não lhe queria convencer a nada, simplesmente mostrar -lhe os sentimentos que internamente rasgavam o meu cerne. Não foi preciso, da minha boca, ouvirem -se pomposas melodias poéticas. Não, não foi preciso. Um entre olhares bastou. Engoliamo-nos só pelo olhar, pelo encanto . O léxico era ínfimo demais para expressar a vertiginosa sensação que nos envolvia. Daí sucede que, irrigados de filosofia, bastou -nos viver ao mais alto nível o amor ratinoalis , cultivando o amor no seu verdadeiro sentido, livre das emoções momentâneas, efémeras; Secundarizando os deleites da carne, valorizando o racional.

Era, em sublime perfeição, daquelas que tanto sonhara. Aparecera-me em tempo oportuno aquando do desenvolvimento da minha filosofia do amor. Amor não é duro nem forçado, é leve,leve como pluma. Amor não é sensível, é ratio. Amor não é doxa, é episteme.

Subiso, Osvaldo Xavier.

 

  • Autor: Osvaldo Subiso (Offline Offline)
  • Publicado: 2 de fevereiro de 2026 16:02
  • Categoria: Amor
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