IV - Robótico

Noétrico

Não decide.
Executa.

Aprendeu cedo
que pensar custa
e repetir protege.

O gesto vem antes do motivo.
A resposta, antes da pergunta.
Não erra porque não tenta outra coisa.

Levanta no horário certo,
fala no tom esperado,
repete o que funciona
— mesmo quando já não significa nada.

Não acredita.
Cumpre.

Quando pergunta “por quê”,
já está atrasado.
O sistema não espera quem precisa entender.
O robótico não é frio.
É econômico.
Economiza dúvida,
economiza conflito,
economiza exposição.

Grita com a multidão
para não ser visto.
Anda com todos
para não cair sozinho.
Não quer dominar.
Quer seguir sem custo.

E segue.
Mesmo quando tudo muda,
mesmo quando o corpo protesta,
mesmo quando o sentido sai pela porta.
Segue porque parar exigiria escolha.
E escolher
já não está no procedimento.

O robótico não prende.
Ele continua.
E enquanto continuar for mais seguro
do que pensar,
ele permanecerá
como se fosse natural.

  • Autor: Noétrico (Offline Offline)
  • Publicado: 1 de fevereiro de 2026 16:04
  • Comentário do autor sobre o poema: É como quem observa de dentro, não de fora. Não é um ataque às pessoas, é denúncia do mecanismo. O robótico não é ausência de humanidade — é humanidade cansada de escolher e seguindo o fluxo construído pelos anteriores a eles.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 6


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