A inclinação da vida

Amanda S. Moraes

A Terra gira sobre um eixo inclinado,

não por acaso, mas por memória de impacto;

desse desvio nasceram as estações,

o ritmo do grão, da pele, do pacto.

Inclinar-se foi o primeiro gesto da vida

aprendendo que existir é adaptação bendita.

 

No núcleo, ferro líquido escreve pulsos,

um coração metálico em rotação sutil;

dele brota o campo que dobra partículas,

escudo invisível contra o fogo hostil.

Sem essa dança magnética silenciosa,

nenhuma célula ousaria ser curiosa.

 

Os antigos sabiam sem equação escrita:

no Nilo, no Amarelo, no Tigre ancestral,

mapearam o céu para semear o solo,

leram ciclos solares como código vital.

O mesmo céu nomeado em línguas distantes

ensinava o tempo a povos caminhantes.

 

Cada nascimento herda vetores ocultos:

latitude imprime ângulo no olhar,

a Lua treina líquidos no corpo,

o mês ensina o pulso a respirar.

Não é destino fixo nem crença vazia,

é probabilidade dialogando com escolha tardia.

 

O carbono que pensa já foi estrela extinta,

o cálcio do osso veio do mar antigo;

memória mineral vestiu-se de carne

para experimentar abrigo e perigo.

Somos fósseis que aprenderam a sonhar

e a perguntar ao cosmos como continuar.

 

Por isso a vida aqui não é milagre isolado,

é continuidade que insiste em florir;

um enigma legível para quem aceita

que saber e mistério sabem coexistir.

A Terra não explica,

convida,

quem escuta, participa da escrita viva.

 

 

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de janeiro de 2026 08:09
  • Categoria: Natureza
  • Visualizações: 1


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.