A Terra gira sobre um eixo inclinado,
não por acaso, mas por memória de impacto;
desse desvio nasceram as estações,
o ritmo do grão, da pele, do pacto.
Inclinar-se foi o primeiro gesto da vida
aprendendo que existir é adaptação bendita.
No núcleo, ferro líquido escreve pulsos,
um coração metálico em rotação sutil;
dele brota o campo que dobra partículas,
escudo invisível contra o fogo hostil.
Sem essa dança magnética silenciosa,
nenhuma célula ousaria ser curiosa.
Os antigos sabiam sem equação escrita:
no Nilo, no Amarelo, no Tigre ancestral,
mapearam o céu para semear o solo,
leram ciclos solares como código vital.
O mesmo céu nomeado em línguas distantes
ensinava o tempo a povos caminhantes.
Cada nascimento herda vetores ocultos:
latitude imprime ângulo no olhar,
a Lua treina líquidos no corpo,
o mês ensina o pulso a respirar.
Não é destino fixo nem crença vazia,
é probabilidade dialogando com escolha tardia.
O carbono que pensa já foi estrela extinta,
o cálcio do osso veio do mar antigo;
memória mineral vestiu-se de carne
para experimentar abrigo e perigo.
Somos fósseis que aprenderam a sonhar
e a perguntar ao cosmos como continuar.
Por isso a vida aqui não é milagre isolado,
é continuidade que insiste em florir;
um enigma legível para quem aceita
que saber e mistério sabem coexistir.
A Terra não explica,
convida,
quem escuta, participa da escrita viva.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 30 de janeiro de 2026 08:09
- Categoria: Natureza
- Visualizações: 1

Offline)
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