Do vidro às cinzas

Kira

O teu suave toque permanece em minha pele, que já não podes mais te ter, mesmo que residas ao meu lado. Tuas pupilas, antes dilatadas ao ouvir meu nome, já não reagem como antes, transpassando-me o amargor de tua alma. O doce caramelo em minha voz quebra ao pronunciar teu frio e denso nome; que me enjoa, sem intenção de vomitar. A melodia de tua voz ainda rasga-me como lâminas afiadas, fazendo-me jorrar o sangue que tu não vês. Teus olhos apenas se guiam por um rastro de brasa aos meus pés, os quais não podem aquecer teu nome, frio como a brisa. O forte vidro que se ergue entre nós me impede de te encontrar, me impede de te tocar, me impede de aquecer-me em tua memória. Agora, tua ausência ainda martela em meu corpo; meu reflexo se põe a desfazer-se em cinzas, que voam na turbulenta tempestade deixada por ti. Os fragmentos de teu ser pairam sobre as nuvens que minhas mãos jamais tocaram, e tua voz ecoa onde eu não posso alcançar. Meu corpo ainda se fortalece, mesmo que tu tenhas cravado cada corte tão profundamente que meus ossos já não sentem medo. Tua ida ainda corta minha alma, mas a fortalece de uma morte que não anseia – de uma morte que ainda aguarda para consumir-me.

  • Autor: Espirais em confusão (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 29 de janeiro de 2026 21:30
  • Comentário do autor sobre o poema: A barreira que me impedia de tocar-te, agora, faz de mim cinzas que voam na brisa.
  • Categoria: Triste
  • Visualizações: 1
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Comentários1

  • Oréon

    Caralho . . . Parabéns. O final foi de arrepiar



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