Duas sílabas acendem cidades dentro do peito:
Eu. Sou.
Como quem gira uma chave antiga
num cofre que sempre esteve na parede —
mas ninguém via a porta.
Onde a mente encontra o corpo sem pedir licença,
e a dor tinha nome, idade, receituário.
Um homem ouviu o que os frascos não diziam:
não é só o remédio que atua —
é o diálogo secreto que o acompanha.
A crença é um mensageiro com mãos limpas:
entrega no corpo o que a mente assina.
E então veio a descoberta mais incômoda:
a palavra interna não é opinião —
é programa.
Cada frase repetida
vira trilha no cérebro,
vira hábito no gesto,
vira lente no mundo.
E o mundo… o mundo obedece à lente.
Porque a realidade tem um vício elegante:
ela gosta de confirmar
o que você chama de “eu”.
Se você se nomeia pequeno,
o horizonte encolhe com educação.
Se você se assume inteiro,
a vida se organiza — às vezes devagar,
às vezes como um susto bom.
Há um escultor morando no silêncio.
Ele não usa martelo de ferro,
usa frases.
Cada “não dá” tira matéria de você.
Cada “é natural pra mim” devolve contorno.
E assim, sem plateia,
você se refaz —
não como quem finge,
mas como quem lembra.
O espelho, então, deixa de ser vidro:
vira portal.
Olhar nos próprios olhos
é encarar o único tribunal
onde a sentença é criativa.
Você não pede permissão ao passado —
você o revisa com ternura cirúrgica,
e escreve outra versão do seu nome
sem apagar a dignidade da história.
Há horas em que o mundo dorme
e a mente fica porosa,
como terra molhada antes da semente.
Nessas janelas, a sugestão entra
sem brigar com o cético interno.
E o “Eu Sou” desce
como comando simples, direto, sem metáfora:
identidade não é desejo —
é endereço.
Eis o segredo mais perigoso por ser discreto:
o que você repete
vira clima.
E o clima vira destino.
Mas entenda:
não é magia que dispensa o real —
é real que responde ao íntimo.
Não é negar o agora,
é não se ajoelhar diante dele.
É viver duas vidas por um tempo:
a que acontece na superfície
e a que você escolheu habitar por dentro.
No fim, a pergunta não é “o que eu quero?”
A pergunta que muda o jogo é outra, mais afiada:
quem eu estou sendo enquanto espero?
Porque a vida não se curva ao pedido.
A vida se curva ao estado.
E quando você diz “Eu Sou”
com a calma de quem não implora,
com a firmeza de quem decide,
o mundo aprende um novo alfabeto
para soletrar você.
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Autor:
Gilberto Lima (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 27 de janeiro de 2026 20:07
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema nasceu de uma intuição antiga: a de que a realidade não começa fora, começa no modo como nos nomeamos por dentro. “Eu Sou” não é apenas uma frase — é um ponto de origem. Um comando de identidade. Um eixo silencioso a partir do qual a mente organiza o mundo e o mundo, gentilmente (ou implacavelmente), confirma. Ao escrever EU SOU — A FARMÁCIA INVISÍVEL, eu quis traduzir uma ideia simples com dignidade estética: nossas palavras internas não são ornamentos emocionais; são arquiteturas. Cada repetição esculpe uma percepção. Cada percepção molda escolhas. E escolhas, com o tempo, viram destino. A “farmácia” aqui é metáfora e é mecanismo: o lugar íntimo onde linguagem vira estado, estado vira postura, postura vira campo. A proposta não é negar o real, mas reposicioná-lo: o agora deixa de ser sentença e passa a ser matéria-prima. Se este texto acender em você um silêncio novo — não o silêncio da ausência, mas o silêncio do comando — então ele cumpriu sua função: lembrar que você não é refém das circunstâncias; você é o autor do estado que as governa. Gilberto Lima
- Categoria: Reflexão
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