Olhando para trás, penso que talvez fôssemos feitos de matérias opostas desde o início. Gastamos a vida inteira tentando erguer paredes sólidas, buscando desesperadamente alguma segurança numa realidade que insiste em nos negar a paz. O nosso maior erro, contudo, e acreditamos que o amor serviria de alicerce, aquela base inabalável, quando, na verdade, ele era apenas a vidraça — bonita, mas prestes a estilhaçar.
Acabei compreendendo que a alma é a nossa casa de vidro. Ela é transparente aos olhos de quem vê, mas terrivelmente frágil ao toque. A nossa transparência parecia um convite irrecusável para o mundo que nos observa; um mundo de olhos famintos, daqueles capazes de nos reduzir a cacos num único suspiro.
Quem habita essa casa de vidro aprende cedo uma lição vital: é preciso desligar as luzes à noite. E foi justamente nesse silêncio, quando a luz se apagou e o vidro virou um espelho escuro, que me vi refletido. Ao encarar minha própria imagem, percebi que não havia nada de errado comigo, mas a tragédia era que também não havia nada de especial. No fundo, éramos apenas dois estranhos que a sorte, por algum capricho, insistiu em não querer unir.
Agora, ao chegar no fim dessa estrada calada, o único saldo que me resta é o peso do nada. A verdade mais dura não é saber que já não sou importante para você, mas sim ter que conviver, todo santo dia, com a certeza de que você continua sendo tudo para mim.
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Autor:
Gustavo Felipe (
Offline) - Publicado: 22 de janeiro de 2026 10:05
- Categoria: Não classificado
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