Eis-me aqui.

Josi Moreira

Pensar no dia do meu nascimento é, no mínimo, curioso. É trazer à memória uma história contada por terceiros — familiares, amigos — e costurar lembranças que não vivi conscientemente, mas que me habitam.

Era 22 de janeiro de 1978, um domingo. O sol brilhava, o dia era tranquilo. Pássaros cantavam, animais passeavam em frente à casa. Minha mãe, com seus seis filhos — de um a dez anos — começava a sentir as primeiras contrações. Não sabia quem era esse sétimo filho ou filha que chegava: alguém que viria para aumentar a família, disputar afeto, espaço e alimento.

Na cabeça serena do meu pai, valia a lógica simples: onde come um, come dois — como se tudo dependesse apenas de saciar a fome do corpo. No coração da minha mãe, porém, havia muito mais que a dor do parto. Havia angústia. Quanto tempo duraria aquele sofrer? Será que tudo daria certo? A criança nasceria viva? Com saúde? São as inquietações profundas do coração de uma mulher em trabalho de parto.

O tempo passava, e com ele os passos da parteira que ajudava minha mãe a trazer à luz aquele rebento — que arrebentava por dentro o ser materno da parturiente. E assim nasce a menina: mirrada, pequena.

— Será que vinga? — perguntavam-se os presentes.
— Bem capaz que não. Não vamos furar a orelha… deixa ver se vinga.

E a menina pequena, mirrada, vingou.

“Demorou” a crescer, mas cresceu.
“Demorou” a falar, mas falou.
Custou a querer ficar, mas permaneceu.

Para dizer que viver é um propósito mais intenso do que apenas nascer. Viver é sentir o corte da carne, o abrir da alma, o sangrar da vida. E, entre choro, riso, fúria e mansidão, olhar para a composição do grande teatro da existência e dizer a todos que compõem esse imenso elenco — amigos, família, colegas e transeuntes anônimos:

Aplausos pela existência e pela permanência!!!
Pois eis-me aqui.

  • Autor: Josi Moreira (Offline Offline)
  • Publicado: 22 de janeiro de 2026 07:55
  • Categoria: Não classificado
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