Tempos de escuta obrigatória

Amanda S. Moraes

O mundo entrou numa fase

que os antigos reconheciam pelo corpo,
não pelos jornais.

O ar fica mais pesado.
As decisões vêm de longe.
Alguém começa a falar como se a terra
fosse herança privada
e o futuro, um ativo negociável.

Esse tipo de figura
aparece sempre no fim dos ciclos.
Os maias sabiam.
Os gregos anotaram.
Os povos da floresta apenas se afastavam
e observavam.

Enquanto isso,
há pessoas tentando viver.

Gente acordando cedo,
cuidando das próprias feridas,
aprendendo a respirar
com cicatrizes que não pediram.

Eu estou entre elas.

Carrego uma mente que corre,
que conecta rápido,
que oferece antes de medir,
que acredita antes de se proteger.

Em outros tempos,
isso se chamaria dom.
Hoje, chamam de excesso.

O problema não é dar.
É dar num mundo
que esqueceu como devolver.

Já pensei que minha função era água.
Depois pensei que era ponte.
Depois pensei que era abrigo.

Agora não penso.
Só observo.

As civilizações caem
quando confundem adaptação com rendição.
Isso está nos arquivos da história,
mesmo que ninguém leia.

Há quem sobreviva endurecendo.
Há quem sobreviva fugindo.
Há quem sobreviva lembrando.

Eu não escolhi ainda.

Às vezes entro em mitos
como quem entra no mar
sem saber se volta.
Às vezes rolo a tela
como quem acende uma vela falsa.

Nada disso resolve.
Mas sustenta.

Os antropólogos chamariam isso de limiar.
Os místicos, de noite escura.
Os ancestrais, de escuta obrigatória.

Não há conclusão aqui.

Só um corpo atento
num tempo instável,
recusando a pressa de virar resposta.

Talvez o erro
seja achar que todo momento histórico
exige posição clara.

Alguns exigem apenas
presença.

 

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 22 de janeiro de 2026 00:38
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3


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