Empréstimo sagrado

Amanda Suita

 

No princípio

ninguém disse “começa”.

A vida aconteceu

como acontece a respiração:

sem plateia,

sem promessa,

sem dono.

Os antigos sabiam.

Por isso não escreveram livros,

escreveram montanhas.

Não deixaram tratados,

deixaram pegadas no barro

e histórias presas na fumaça.

Dizem que o mundo nasceu do canto.

Que antes da luz

houve um som grave,

um murmúrio tão profundo

que acordou a matéria

do seu sono mineral.

Alguns chamam de verbo.

Outros de sonho.

Há quem diga que foi um animal antigo

sacudindo o corpo no escuro

e espalhando estrelas como pólen.

A terra, recém-criada,

não sabia ser terra.

Aprendeu com as mãos do tempo,

com a paciência das raízes,

com a insistência da água

em sempre encontrar passagem.

Os povos da floresta dizem

que tudo tem ouvido.

Que a pedra escuta.

Que o rio se lembra.

Que o vento carrega nomes

que não cabem em boca humana.

Por isso falam baixo.

Por isso pedem licença.

Por isso agradecem antes de colher.

A vida não é posse.

É empréstimo sagrado.

Em algumas margens do mundo

contam que o primeiro ser humano

nasceu do barro aquecido pelo sol

e recebeu como tarefa

não dominar,

mas cuidar do ritmo.

Em outras,

dizem que viemos do ventre da noite

e que morrer é apenas

voltar a sonhar o mesmo sonho

por outro ângulo.

Há povos que sabem

que o tempo não anda em linha,

anda em espiral.

O que foi

ainda é.

O que será

já respira em silêncio.

A ciência chama de ciclo.

Os antigos chamavam de respeito.

A chuva não cai.

Ela retorna.

O fogo não destrói.

Ele transforma.

A morte não encerra.

Ela muda o estado da dança.

Tudo vive em parentesco.

A onça e o homem.

A folha e o osso.

O relâmpago e o pensamento.

Quando esquecemos disso,

adoecemos.

Chamamos de progresso

o que os ancestrais chamariam de desequilíbrio.

Mas a vida insiste.

Sempre insistiu.

Ela brota em fendas improváveis,

nasce em desertos de concreto,

se reinventa em corpos cansados,

canta mesmo quando tentam silenciá-la.

Talvez viver seja isso:

lembrar o que o corpo já sabe

antes que o mundo nos distraia demais.

Que somos feitos do mesmo material

que as estrelas cansadas.

Que respiramos histórias muito antigas.

Que amar a terra

é amar a própria continuidade.

E que enquanto houver 

alguém

capaz de escutar o vento

como quem escuta um ancião,

a criação

não estará concluída.

Ela seguirá acontecendo.

  • Autor: Amanda Suita (Offline Offline)
  • Publicado: 17 de janeiro de 2026 23:22
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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