Sempre fui a pessoinha que ama caminhar sozinha. Não por falta de afeto, mas por excesso de consciência. Caminho acompanhada da minha espiritualidade, que nunca se atrasa nem exige explicações. Aprendi cedo que os passos que damos nos lembram de uma verdade simples e dura: nascemos sós e também partimos sós. O crescimento — físico ou espiritual — até passa pelas relações humanas, mas não depende delas. Depende, sobretudo, de nós.
Todas as minhas escolhas nasceram desse caminhar individual. Escolhi não ter filhos por amor. Porque sei que é melhor não ter do que conviver sem estar inteira. Há decisões que não admitem ensaio nem arrependimento. São irrevogáveis. Escolhi viver eu e o meu amor numa vida decidida a dois, mas livre em essência: juntos quando faz sentido, separados quando necessário, inteiros sempre.
A liberdade sempre foi o eixo. A possibilidade de andar sozinha sem culpa e de andar acompanhada sem perder a si mesma.
Mas, ultimamente, uma eventualidade chegou sem pedir licença. Não bateu à porta — entrou espalhando situações que eu não previ, bagunçando um mapa que eu conhecia de cor. Incluir mais alguém na caminhada revelou-se mais difícil do que eu imaginava. O remo a três perde a sincronia. O ritmo se quebra. A travessia pesa. E a vida, que antes fluía, começa a exigir força onde antes havia leveza.
Hoje me sinto sem norte. Não quero voltar, mas também não sei avançar. O que desejo, no fundo, é recuperar aquilo que sempre foi meu: a liberdade de caminhar sozinha quando escolho e de caminhar junto quando o encontro soma, não divide.
É assim que, às vezes, os encontros viram desencontros — não por falta de afeto, mas por excesso de mãos tentando conduzir um caminho que sempre foi feito para pés livres.
-
Autor:
Josi Moreira (
Offline) - Publicado: 15 de janeiro de 2026 10:07
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3
- Usuários favoritos deste poema: Josi Moreira

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.