Instruções para Não Ser Máquina

Amanda Suita

Não nos ensinem
a fazer amor
como quem planta trigo
em solo fiscal.

Não nos paguem
para gerar corpos
como se o útero fosse
fábrica de cidadãos
e não templo
de escolhas silenciosas.

Querem marcar nossas noites
com relógios de Estado,
apagando nossas telas
para que façamos
o que vocês chamam
de “futuro”,
mas que é só
mais carne
para os canhões
de suas guerras.

Dizem: “Tenham filhos.
É seu dever.”
Mas onde está o pão?
Onde está o teto?

Onde está o direito
de olhar nos olhos
de quem se ama
sem pensar
em bônus,
em certificados,
em perdão de dívidas
como moeda de afeto?

Amor não tem preço.
Tem território:
o espaço entre dois corpos
que decidem,
livres,
sem medo,
sem decreto,
se querem
ou não
criar mundo
juntos.

Enquanto isso,
eles contam cadáveres
e chamam de estatística.
Contam berços
e chamam de vitória.
Mas não perguntam
se há paz
na casa
onde a criança nasce.

Nós não somos soldados
do vosso inverno demográfico.
Nem peões
num tabuleiro
de nações ansiosas.
Somos gente.
E gente
não se programa
com isenção de impostos.

Deixem-nos

amar.

Deixem-nos
errar.
Deixem-nos
esperar.
Deixem-nos
ficar sós
sem serem julgados
como desertores.

Porque o verdadeiro futuro
não nasce
onde há dinheiro.
Nasce
onde há liberdade
para dizer:
"não hoje",
"sim, mas quando eu quiser",
"Jamais, e ainda assim sou inteiro".

Que nenhum governo e religião 
decida por nós
quando o coração
deve bater
mais forte.

Que nenhuma lei
meça o valor
de um abraço
pelo número
de futuros soldados
 que ele produz.

E que, um dia,
as nações entendam:
não precisamos
de mais corpos.
Precisamos
de mais alma.

  • Autor: Amanda Suita (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de janeiro de 2026 09:32
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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