Só Para Você

SADE

 

Escrevo baixo,
porque isso não é para o mundo.
É para o espaço exato
entre o teu ouvido e a tua respiração
quando ninguém mais existe.

Chego perto como quem já foi aceito.
Não preciso anunciar nada 
teu corpo reconhece
antes que tua mente formule.
E esse reconhecimento
é o gesto mais íntimo que existe.

Falo pouco.
Aprendi você no silêncio:
no modo como prende o ar
quando percebe que está sendo vista
por inteiro,
sem pressa,
sem distração.

Minha mão encontra a tua
como se sempre tivesse sabido o caminho.
Não há curiosidade 
há memória.
E você entende que não é invasão
quando o toque respeita
até o que você ainda não confessou.

Eu te conduzo quase sem mover.
É presença que pesa suave,
atenção que envolve.
Você se aproxima não porque chamo,
mas porque permanecer distante
ficou insuportável.

Teu corpo se entrega em detalhes mínimos:
um ajuste de postura,
um suspiro que escapa,
um abandono discreto
que só eu percebo 
e guardo.

Nada aqui é excesso.
O perigo está na precisão.
No jeito como sei quando parar,
quando continuar,
quando apenas ficar.
E você confia
porque percebe
que não será ultrapassada,
apenas profundamente alcançada.

Quando a noite avança,
estamos próximos demais
para fingir indiferença.
Testa com testa,
respiração misturada,
o mundo reduzido
a esse ponto exato
onde você se permite ser
sem defesa.

Não digo que é minha.
Não preciso.
Você fica.
E ficar, assim,
é a forma mais íntima de escolha.

Quando tudo silencia,
você leva consigo
não o que fizemos,
mas a sensação rara
de ter sido lida devagar,
com cuidado,
como algo que não se repete.

E isso 
isso eu escrevi
apenas para você.

  • Autor: SADE (Offline Offline)
  • Publicado: 14 de janeiro de 2026 10:39
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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