Verão

Amanda Suita

 

O verão não pede licença.

Ele chega abrindo o corpo dos dias,

sal grosso no ar,

riso solto nas calçadas,

uma promessa simples:

hoje ninguém vai caber inteiro em si.

A praia ferve de presença.

Pés descalços aprendem outra língua,

ombros brilham,

o tempo esquece os relógios

e se estica como um gato ao sol.

Tudo é excesso bom.

O calor cola a pele ao mundo,

as cores ficam mais próximas,

e até o silêncio soa feliz

entre uma onda e outra.

Então a tarde muda de humor.

Nuvens sobem rápido,

o céu ensaia seus dramas,

e o vento passa correndo

como quem anuncia segredo.

A chuva cai quente, breve,

lavando o pó dos pensamentos.

As pessoas não fogem,

 elas dançam, riem,

aceitam o banho como quem diz sim

sem perguntar a quê.

Depois, o céu se abre em camadas.

Rosas, laranjas, violetas,

um arco-íris torto

como se tivesse sido feito às pressas

só para não perder o momento.

Tudo pulsa.

Não há falta.

Não há depois.

Só esse agora largo,

esse prazer de estar vivo

sem precisar justificar.

O corpo entende antes da mente:

há dias feitos para durar pouco

e se alojar fundo.

O verão sabe disso.

Por isso passa ardendo,

deixa rastro,

deixa sede,

deixa essa vontade estranha

de abraçar a vida

como se ela fosse intensa demais

para ser guardada.

E talvez seja.

  • Autor: Amanda Suita (Offline Offline)
  • Publicado: 13 de janeiro de 2026 07:59
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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